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PRÉMIO ANTÓNIO QUADROS 2025 Categoria: MUSEOLOGIA Instituição Vencedora: Museu de Arte Contemporânea Armando Martins - MACAM Coordenação: Mafalda Ferro. Júri: Henrique Cayatte, Margarida Cunha Belém e Margarida de Magalhães Ramalho (presidente). Cerimónia de entrega (integrada nas comemorações dos 33 anos depois da morte de António Quadros): MACAM, Lisboa, 21 de Março de 2026. Troféu: O troféu «Vida», em forma de espiral (bronze sobre base em madeira de mogno), criação da arquitecta / escultora Cristina Rocha Leiria. Apoios: Câmara Municipal de Rio Maior; Casa da Caldeira; Doces d'Aldeia; Enoport Wines; Loja do Sal. Relatório do júri: O júri do Prémio António Quadros 2025 - Museologia – decidiu, por unanimidade, atribuir ao MACAM Museu de Arte Contemporânea Armando Martins este galardão. As razões são múltiplas. Em primeiro lugar é sempre de louvar a abertura ao público de uma colecção privada, de cerca de seiscentas obras, principalmente quando se trata de uma colecção como esta, tão importante para a História da Arte Portuguesa, pelas razões que veremos mais à frente. Em segundo lugar, esta colecção está exposta num edifício histórico, o palácio setecentista dos Condes da Ribeira Grande. Aqui nasceu, em 1852, o poeta e dramaturgo D. João da Câmara, que, em 1901 chegou a ser nomeado para Nobel da Literatura. Durante décadas, este edifício, pelas diversas ocupações que teve, sofreu inúmeros atentados patrimoniais e que agora foram largamente minorados. O restauro actual é sem dúvida exemplar e uma mais-valia para a cidade de Lisboa que assim vê recuperado um edifício de imenso valor arquitectónico. É nos pormenores que se percebe, claramente, o cuidado com que esta reabilitação foi feita. É, por exemplo, o caso da escolha dos pavimentos das salas de exposição, que “casam” na perfeição com o granito original e a recuperação das antigas portas de madeira, das ferragens e das abóbadas de tijolo. O mesmo se pode dizer do arranjo dos jardins e da integração da ala nova cuja fachada revestida a azulejos tridimensionais, inspirada em motivos tradicionais, assinados por Ana Vasco Costa, não deixa de nos remeter para as ideias defendidas na década de 1940 por António Ferro. Como se sabe, tanto Fernanda de Castro como António Ferro sempre defenderam uma ligação próxima entre modernidade e tradição. Veja-se, por exemplo, a criação, em 1940, da Companhia de Bailados Portugueses Verde Gaio. Por outro lado, o conceito inovador de museu/hotel mereceu também a atenção do júri. Mas um outro conjunto de razões, ligadas à colecção propriamente dita, foi também determinante na atribuição do Prémio António Quadros 2025 ao MACAM. Maioritariamente composta por obras de artistas portugueses, Armando Martins não se esqueceu de ninguém. Dos caricaturistas do início do século XX - alguns que já tinham participado em 1912 na exposição do Grémio Literário - até a artistas contemporâneos como Jorge Vieira, Rui Chafes, Maria Helena Vieira da Silva, Menez, Paula Rego, Júlio Pomar, Pedro Cabrita Reis, José Pedro Croft, Julião Sarmento entre tantos outros, passando também pelo melhor que o modernismo português teve. Segundo um dos membros do júri, a artista plástica Margarida Cunha Belém, a pedra-de-toque da exposição no primeiro piso, prende-se com a presença na mesma sala, dos pintores e do poeta do Orpheu: de Santa-Rita, uma das duas pinturas que sobreviveu ao seu pedido para que toda a sua obra fosse destruída após a sua morte: Orpheu no Inferno (pintado ainda como estudante das Belas-Artes), quadro que se encontra na mesma sala onde também está representada a geração de oitocentos, nomeadamente Veloso Salgado, professor de Santa-Rita no último ano do curso de pintura, e que o jovem artista coloca (entre várias personagens) no inferno; de Almada Negreiros, dois dos quatro painéis que fez para a Alfaiataria Cunha (as suas primeiras pinturas a óleo) e o estudo Diligência no Terreiro do Paço para o painel dos Correios dos Restauradores que foi destruído; e, completando a tríade dos modernistas, o maravilhoso quadro de Amadeo de Souza Cardozo Música surda. O conjunto das obras destes três amigos, recordam-nos o “inextinguível” grupo do Orpheu, nas palavras de Fernando Pessoa. O grupo que Almada Negreiros definiu como «o primeiro grito moderno que se deu em Portugal», acrescentando: «(…) Simultaneamente ao nosso movimento literário, o grupo completava-se com os pintores vindos de Paris em 1914. Completava-se e excedia-se. Guilherme de Santa-Rita e Amadeu de Souza-Cardoso, duas fortes personalidades opostas, plenas de modernismo e absolutamente inéditas na ideologia e sensibilidade portuguesas (…)» Apesar da segunda geração modernista nunca ter conseguido ultrapassar o vanguardismo plástico de Santa-Rita e Amadeo, e o do poeta da Cena do Ódio Almada Negreiros, ela também está representada no MACAM. Alguns destes artistas colaboraram com António Ferro, também ele um “homem do Orpheu”, como editor da revista. A colecção, que não se esgota no extraordinário acervo de artistas portugueses, continua na ala nova com um acervo importante de artistas contemporâneos de diversas nacionalidades. O MACAM torna-se assim um exemplo de mecenato fundamental para a memória passada e futura das artes plásticas, bem como da recuperação do património arquitectónico, porque como nos lembra Eduardo Lourenço, na sua obra Da Pintura: «a arte não existe para impedir o mundo de passar, mas para transfigurar o mundo que passa, para dar ao mundo que passa a face da nossa esperança que não passa.» Júri, notas biográficas: MARGARIDA CUNHA BELÉM Nota biográfica Nasceu em Lisboa em 1967. Licenciou-se em Pintura na Escola de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e fez o Mestrado em Estudos Clássicos na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Membro do CIEBA-FH - Centro de Investigação e de Estudos em Belas-Artes - Instituto Francisco de Holanda. Expõe desde 1993, tendo feito exposições no Porto, Évora, Sintra, Alcobaça, no Centro Cultural Emmérico Nunes (Sines) e em Lisboa. Comissariou as exposições: Francisco de Holanda: Desejo, Desígnio e Desenho 1517 – 1584 (2017) e Pardal Monteiro: Arquitectura pura e simplesmente (2019), ambas no Museu do Dinheiro, em Lisboa. Foi co-autora (com Gabriella Casella) do livro Cal D. Fradique – uma herança milenar que regista o estudo sobre o restauro do Palácio Belmonte em Lisboa (1996) e do livro Diálogos de Edificação – Técnicas tradicionais de Construção, editado pelo CRAT(1998). Foi co-autora (com Margarida Magalhães Ramalho) da fotobiografia sobre o pintor Amadeo de Sousa-Cardoso, ed. Círculo de Leitores, (2009). É autora de dois livros que integram a coleção Essenciais sobre os arquitectos Siza Vieira e Eduardo Souto Moura, editados pela Imprensa Nacional – Casa da Moeda (2011). MARGARIDA DE MAGALHÃES RAMALHO Nota biográfica Margarida de Magalhães Ramalho é licenciada em História da Arte e investigadora do Instituto História, Territórios e Comunidades. Foi responsável pelas escavações arqueológicas na Fortaleza de Nossa Senhora da Luz, em Cascais (1987-2005), com alguns estudos publicados nesta matéria. Pertenceu aos quadros da EXPO’98 (1993-1998) onde foi curadora de algumas exposições. Tem comissariado outras, tanto em Portugal como no estrangeiro. Desde 2000 que a sua área de investigação se tem centrado na II Guerra Mundial e no papel de Portugal no acolhimento aos refugiados. Nesse âmbito, foi coautora e responsável pelos conteúdos científicos do Museu Virtual Aristides de Sousa Mendes e comissária em coautoria da exposição Lisboa, a Última Fronteira. Foi ainda responsável científica dos conteúdos do Memorial Vilar Formoso, Fronteira da Paz, inaugurado em 2017. Nesse âmbito, recebeu o Prémio APOM 2018 para a categoria Investigação. Recebeu, também, o Prémio da Fundação António Quadros (2018) e o Prémio do Grémio Literário (2019), com o livro Thomaz de Mello Breyner. Relatos de uma época: do fim da monarquia ao Estado Novo, Imprensa Nacional, 2018. Tem mais de vinte e cinco títulos publicados e colabora regularmente com o jornal Expresso.
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