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ANTÓNIO QUADROS (1923 / 1993) 1923 — 1951 Filho primogénito dos escritores Fernanda de Castro e António Ferro, António Quadros, de seu nome completo António Gabriel de Quadros Ferro, nasce em Lisboa, às seis e vinte da manhã do dia 14 de Julho de 1923, no 2.º andar do n.º 12 da Rua dos Anjos. O seu signo é Caranguejo. É uma criança morena de olhos azuis, com a tez da mãe; de lembrar que o apelido Quadros, último nome do pai de Fernanda de Castro, provém de uma família da nobreza espanhola de origem indiana (brâmane). Recebe o nome de António Gabriel em homenagem ao poeta italiano Gabriel d'Annunzio, que António Ferro, seu pai, muito admira. É pois, logo aqui, fadado de poesia. Fernanda de Castro experimenta uma forte comoção com a maternidade e anota num álbum de bebé, com versos de Delfim Guimarães e ilustrações de Raquel Roque Gameiro, todos os pequenos registos do seu crescimento — para além da primeira papa ou do primeiro dente, a primeira vez que se benze ou que fala em Deus — não é praticante, mas observa todos os mistérios da vida à luz de um profundo sentimento religioso. Três meses depois do seu nascimento em casa dos avós paternos, a família muda-se para uma casa no n.º 6 da Calçada dos Caetanos, ao Bairro Alto, onde António Quadros cresce e vive até casar. Anos depois, a mãe escreverá no álbum: «Com cinco anos, sabias apenas contar até quatro. Como vês, não eras uma criança precoce. Graças a Deus!» Com essa idade, faz a sua primeira viagem rumo ao Brasil, acompanhando a mãe. Numa entrevista ao Mundo Português (Rio, 12.12.86), recordará, divertido: Vínhamos no mesmo barco com a Tuna Académica de Coimbra, que me escolheu como mascote. Tive de presente uma capa e batina em miniatura, aos cinco anos vesti-me de estudante de Coimbra! Em pequeno, convive sobretudo com os primos direitos Helena e Pedro, filhos de Umbelina e Augusto Cunha, irmã e cunhado de António Ferro. Posa, juntamente com a mãe, para Sarah Afonso; o resultado é uma tela luminosa, que perpetuará uma inquebrantável relação de amor. Tem um único irmão, quatro anos mais novo, Fernando de Castro Ferro, que se distinguirá como tradutor, editor no Brasil e professor em Paris. Aparece pela primeira vez na imprensa associado a um título perverso: «António Ferro nunca viu nem ouviu Salazar» («Notícias Ilustrado», Repórter Zero, s.d.). Cresce no ambiente literário-artístico fomentado por seus pais. Desde pequeno, priva e convive com a elite cultural de Lisboa que, amiúde, frequenta a sua casa para traficar versos, discutir livros ou pintura, esgrimir ideias. A influência é forte demais para não contagiar a criança sensível, delicada e curiosa que a pouco e pouco se desvenda. Em 1928, recebe de presente um quadro de Almada Negreiros que, anos mais tarde, oferecerá ao filho homónimo. É um óleo magnífico, pleno de simbolismo, dedicado «Ao primogénito de António Ferro, lembrança do seu amiguinho Almada». Faz a primária na Escola Francesa, bem perto de sua casa, e os estudos secundários no liceu de Pedro Nunes, à Estrela. É um aluno atento de notas regulares e um adolescente calmo, diligente e sociável. É a própria mãe quem o descreve, nesta fase (in Ao Fim da Memória): «Calado, tranquilo, sem fazer ondas, seguia serenamente o seu caminho, sem sobressaltos, mas de maneira eficiente e segura.» Com 17 anos, participa num bailado em São Carlos, vestido de pescador, para um público «snob» – todos os bailarinos e figurantes são filhos de pessoas da chamada alta sociedade portuguesa. Em 1946, cumpre o serviço militar na Póvoa do Varzim, na categoria de oficial miliciano, com um grupo de amigos que nunca perderá de vista. Faz a tropa consigo, um futuro cunhado: Manim Roquette. Inscreve-se como sócio do Sport Lisboa e Benfica, por influência de um grande amigo, Duarte Borges Coutinho, Marquês da Praia e Monforte, que virá a dirigir o Club. Tornar-se-á feroz adepto dos lampiões. Revelando grande capacidade de abstracção e um poder de concentração notável, lê vorazmente desde pequeno. Talvez por isso, é precoce a sua estreia literário-jornalística aos 19 anos de idade. Assinando António Gabriel, colabora nos jornais da Mocidade Portuguesa. Concluído o ensino secundário, matricula-se, em 1942, na Faculdade de Direito de Lisboa, por influência de seu pai, que, para atender a outras prioridades, fora forçado a abandoná-la. A sua vocação revela-se, porém, muito mais literária e especulativa do que jurídica, pelo que, no ano seguinte, troca a Escola do Campo de Santana pela Faculdade de Letras de Lisboa, então situada no antigo Convento de Jesus. Nesta época é retratado por Pedro Leitão e pela pintora Inês Guerreiro, grandes amigos da família. Em 1946, tem o seu primeiro emprego, parcamente remunerado, como chefe da Secção de Propaganda e de Turismo dos Serviços Culturais da Câmara Municipal de Lisboa. Paralelamente, começa a publicar frequentes artigos de crítica em jornais e revistas que, em 1947, reúne num volume que intitula Modernos de Ontem e de Hoje. Durante os anos 40, devido à posição dos seus pais, o escritor vive uma intensa vida mundana, frequentando as festas e os clubes da melhor sociedade lisboeta e cascalense. Fernanda de Castro dirige, então, a Associação Nacional de Parques Infantis e uma das suas colaboradoras prende a atenção de António Quadros: Paulina Roquette, filha dos Viscondes da Fonte Boa, uma das maiores belezas do seu tempo. António Quadros já namorara duas vezes, e Paulina, ou Pó como é conhecida, acabava de romper um noivado de sete anos com um futuro médico. A sua família, muito conservadora, começa por guardar reserva ao namoro e à perspectiva da eventual união a uma família de artistas; mas a delicada e discreta presença do escritor, o seu trato afável e a sua precoce e invulgar cultura, acabam por conquistar toda a família. No dia 3 de Dezembro de 1947, organiza com os grandes amigos de então: Guinho Bettencourt, Luís Praia, João Carvalhosa e António Ficalho, a sua festa de despedida de solteiro no restaurante Machado, em Lisboa. Casam-se em Lisboa, no dia 8 de Dezembro de 1947, dia da Imaculada Conceição e, também, do aniversário de Fernanda de Castro, sob o olhar de Santa Teresinha do Menino Jesus, cujo santuário –a Igreja das Mercês –patroniza. Preside ao matrimónio um primo, o Padre Pedro Gamboa. Passam a noite de núpcias na pousada de S. Brás de Alportel, seguindo depois para Sevilha, que se tornará, por devoção, a cidade dilecta do casal. Pó é recebido por Fernanda de Castro de braços abertos e encontra em António Ferro o pai que perdera aos 14 anos. A tragédia de dois filhos perdidos, no começo da vida, ensombra o casal. António Quadros cumpre a promessa de fazer uma peregrinação a pé, a Fátima. O nascimento do seu filho António desperta na família uma alegria incomensurável. António Ferro, ausente na Suíça, é contactado pela Casa de Saúde Alemã para experimentar a alegria de ouvir, no choro do neto o seu primeiro sinal de vida. Do casamento, que vence todas as crises e durará 50 anos, nascem seis filhos e vingam três: António Duarte Roquette Ferro (1952) que segue as pisadas do pai como Director-Geral do IADE, Ana Mafalda Roquette de Quadros Ferro (1953), continuadora da obra da avó nos Parques Infantis e Rita Ferro (1955), que inicia com os seus romances uma terceira geração de escritores. O casal vive sempre entre Lisboa e Cascais; primeiro, na Avenida Guerra Junqueiro, em Lisboa; anos depois na Rua Afonso Sanches, em Cascais; novamente em Lisboa, no n.º 7 da Rua João Pereira da Rosa, antiga Calçada dos Caetanos, na mesma rua da mãe; a seguir na Rua Cecílio de Sousa, ao Príncipe Real e de novo em Cascais, na Rua Dr. António Dias Pinheiro, numa zona ainda pacata da vila. Passa longos períodos de férias na Quinta da Marinha, onde Fernanda de Castro aluga, 15 anos consecutivos, a casa onde se situa hoje o clube do empreendimento e, alternadamente, em Cascais, na Praia da Granja, na Praia das Maçãs e no Algarve, aqui em Alporchinhos (Armação de Pêra), no mês de Agosto, numa casa típica também alugada por sua mãe e ainda na Quinta da Balaia, propriedade de dois dos seus cunhados. António Quadros é excelente tenista e joga durante toda a vida, ganhando, juntamente com o filho, múltiplos torneios de pares. De entre os parceiros das primeiras partidas na juventude, encontra-se Sam, o cartoonista. Ainda como aluno da Faculdade de Letras de Lisboa inicia-se nas lides literárias. Entre os pensadores portugueses, é na figura de Delfim Santos que encontra o seu primeiro mestre. Em 1948, conclui o curso de Ciências Histórico-Filosóficas com uma dissertação sobre a arquitectura portuguesa, que, mais tarde, viria a constituir a base da sua Introdução a Uma Estética Existencial (1954). Mas, ainda antes, publica dois livros de poesia: Além da Noite (1949), dedicado «À minha mãe, ao meu pai e à minha mulher, três poetas da minha poesia», e Viagem Desconhecida (1952), com o subtítulo de Itinerário Poético, que inclui alguns dos seus melhores sonetos. A sua personalidade e o seu temperamento já estão, por esta idade, consolidados: é uma presença amável e bem-humorada, disponível para os outros e absolutamente incapaz de cinismo ou de vileza. Em 1950, inicia o convívio com Álvaro Ribeiro e José Marinho, ambos discípulos de Leonardo Coimbra, e que com este formam, na sua opinião, «o triângulo estruturante da escola filosófica portuguesa no século XX». Assim, começa a frequentar a tertúlia que os dois filósofos portuenses mantinham na velha Brasileira do Rossio, e por onde passaram, ao longo do tempo, figuras cimeiras da cultura portuguesa contemporânea, como Almada Negreiros, António Duarte, Cândido da Costa Pinto, Jorge de Sena, José Blanc de Portugal, Eudoro de Sousa, Sant'Ana Dionísio, Amorim de Carvalho, José Osório de Oliveira, Pedro de Moura e Sá, Carlos Queiroz, Domingos Monteiro, Francisco da Cunha Leão, Rui Cinatti e Natália Correia. Este convívio será determinante para a estruturação do seu Pensamento e da sua Obra. Os seus interesses estéticos alargam-se, igualmente, ao dominio do bailado, escrevendo críticas e chegando a ser autor, em parceria com o seu irmão, de um programa semanal na Emissora Nacional. António Quadros, que adopta este apelido para assumir uma personalidade literária distinta da de seus pais, usa vários pseudónimos; entre eles, o de Rui Bandeira (?), como crítico de artes plásticas para o jornal «O Século Ilustrado» e para a Rádio Renascença, bem como para outras colaborações esparsas, e ainda o de Paulo Roquette, inspirado num dos apelidos da mulher, com que assina, no princípio de carreira, artigos associados à tauromaquia e aos Parques Infantis de sua mãe. Em 1951, funda com Orlando Vitorino, a partir de uma ideia onde também colaboram os escultores António Duarte e Martins Correia, os fascículos de cultura Acto, que defendem a originalidade de uma filosofia portuguesa, autónoma e diferenciada. Em entrevista ao «Diário Popular» (3.10.51), justifica a um jornalista a oportunidade da «Acto»: …Estou firmemente convencido de que, cansado de tanta mistificação literária, o público culto português anseia por algo de novo, de diferente. Os custos são inteiramente suportados pelos directores, pelo que a revista terá apenas dois números –uma experiência breve, sem dúvida, mas que viria a constituir a primeira manifestação de uma geração de discípulos da «Filosofia Portuguesa», defensora da existência de uma substância filosófica original e genuinamente lusa. 1952 — 1956 Colaborando agora nos Serviços da Campanha Nacional de Educação de Adultos (1953), prossegue e desenvolve a sua acção e a sua obra, sedimentando os princípios da filosofia portuguesa que tanto o empolgam e mobilizam, embora acolhidos com cepticismo e ironia por numerosos contraditores. Nesta altura, é já uma presença constante na imprensa, em especial na página cultural do «Diário de Notícias», dirigida à data, pela poetisa Natércia Freire. Revela-se, igualmente, insigne conferencista, e é permanentemente solicitado para proferir palestras sobre os mais variados temas ligados à cultura portuguesa, em particular os relacionados com o sistema da educação universitária, que já constituíra questão central na revista «Acto», e que, na geração anterior, tanto preocupara os seus mestres Álvaro Ribeiro e Delfim Santos. Em 1955, seis meses depois do nascimento da filha mais nova, empreende com a mulher uma grata viagem que intitula, no álbum onde regista surpresas e emoções, A Itália em 30 dias. O roteiro é seu: Lisboa, Hendaia, Génova, Milão, Veneza, Roma, Siena, Florença, Pisa. Veneza fascina-o: A mais maravilhosa de todas as cidades italianas, excedendo todas as expectativas e ainda mais sonho do que todos os sonhos. António Ferro, então ministro em Roma, é o cicerone de ambos em Itália, mas as atenções que lhe merecem o cargo de embaixador, extendem-se ao filho e à nora, impedindo o casal de cumprir algumas rotas; desolado, António Quadros, pouco dado a formalismos, lastima: Por causa de um almoço maçadoríssimo não pudémos ir a Capri. Roemo-nos de desespero! Em Castel Gandolfo, o casal vê Sua Santidade o Papa Pio XII e escuta a sua mensagem. Em Roma, jantam num restaurante onde avistam a imperatriz Soraya, a quem são apresentados no dia seguinte numa recepção em sua honra, oferecida pelo Embaixador do Irão. Jovens e curiosos, misturam-se com a vida social da cidade: vão a dancings, a teatros, a passagens de modelos e a espectáculos dos mais variados. A sua chegada a Roma coincide com uma grande festa oferecida por António Carvalho e Silva, figura da alta sociedade de Cascais, à qual comparece o rei Humberto de Itália. Numa gazeta mundana, os romanos referem-se a Cascais como «A Costa dos Reis». Visita ainda o Museu dos Uffizi, em Florença, que considera o melhor do Mundo e onde pode apreciar, duma assentada, os italianos Leonardo da Vinci, Botticelli, Rafael, Miguel Ângelo, Bellini, Tintoretto e ainda outros como Rubens, Durer, Van Dyck, etc. Abandona o museu asfixiado por tanta beleza. Nas notas de viagem, lamenta não ter realizado um sonho: conhecer Assis e a Basílica de S. Francisco, para ver, com os próprios olhos, os famosos frescos de Giotto; realizá-lo-á mais tarde, também na companhia da mulher. Em 1956, publica os ensaios A Angústia do Nosso Tempo e a Crise da Universidade, onde, meditando na desproporção entre a magra e descarnada cultura com que a Faculdade de Letras tinha contribuído para a minha formação espiritual, e a cultura criadora e viva que me fora dado encontrar fora do âmbito universitário, procura contribuir, através do seu depoimento de antigo aluno, para a reforma da universidade e da educação em geral. Durante os anos 50 escreverá várias peças de teatro, que ficarão inéditas, algumas directamente em francês, como Vivre Notre Mort. 1957 — 1962 Em 1957, é condecorado com a Ordem Britânica da rainha Vitória. No mês de Maio, o casal comparece a um baile da Universidade de Coimbra e conhece Dorival Caymmi que pouco tempo depois, lhe dará o gosto de cantar em sua casa, na companhia de Doris Monteiro. No mesmo ano, realiza no Centro de Estudos Político-Sociais da União Nacional uma conferência intitulada Problemática Concreta da Cultura Portuguesa, posteriormente publicada. No ano do centenário do nascimento de Sampaio Bruno, pensador com quem muito se identifica, toma a iniciativa de lançar, juntamente com Afonso Botelho e Orlando Vitorino, o «Movimento de Cultura Portuguesa», fundando e dirigindo o jornal «57» (1957-1962). Aqui, com maior amplitude, profundidade e continuidade do que se fizera na revista «Acto», cinco anos antes, procurou-se dar pública expressão e desenvolvimento às teses da filosofia portuguesa. São desta época os colóquios O que é o Ideal Português (1961), na Casa da Imprensa, à Rua da Horta Seca, que promove com outros companheiros do «Movimento» e em que proferirá as conferências O Ideal Português na Filosofia e A Criação Artística. Estas iniciativas contaram, igualmente, com a participação de diversos intelectuais e artistas, como Francisco da Cunha Leão, Domingos Monteiro, António Duarte, Bernardo Santareno e António de Macedo e suscitam múltiplas e contraditórias reacções na imprensa da época. É neste período da sua vida que, por influência do padre holandês Dâmaso Lamber, e após profunda reflexão teológica, se reconverte irreversivelmente ao catolicismo. Prossegue a sua obra de crítico, de ensaísta, de pensador e de escritor multifacetado, dando sucessivamente à estampa um ensaio de psicologia e psicografia da cidade de Lisboa, O Enigma de Lisboa (1958), um ensaio de interpretação filosófica da estética contemporânea, Diagnose da Arte Moderna (1958) e, ainda, uma colectânea de ensaios de crítica literária A Existência Literária (1959). É um homem de estudo e cogitação, mas isso jamais o impede de fruir a vida nos seus aspectos mais lúdicos e sociáveis. Nos anos 60, empreende uma viagem a Saint Tropez, então em voga, acompanhada de dois grandes amigos: Pedro Froes e sua mulher, Amélia. Um pouco mais tarde, levado por um cunhado, frequenta os Cursos de Cristandade, iniciativa a que adere com entusiasmo e em cujo desenvolvimento se empenha com convicção. A entrada 'Cursos de Cristandade', na Verbo, Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, é de sua autoria. Em 1960, a convite de Fernando Namora, publica na Arcádia o primeiro estudo sobre a obra de Fernando Pessoa, amigo de seu pai e figura cujo mistério irá intrigá-lo, prendê-lo e convocá-lo inescapavelmente duranter o resto da vida. Poucos dias antes de morrer, confessará a Antónia de Sousa («Diário de Notícias», 11.3.93): Para eu dar o essencial de Fernando Pessoa, tenho de dar o essencial de mim. Às vezes, chego a pensar que o Fernando Pessoa é uma presença de que não me posso livrar. Publica um livro de contos de matriz simbolista –Anjo Branco, Anjo Negro –Contos Fabulosos e Alegóricos (1960). No prefácio, o autor esclarece: São contos que procuram sondar, nas situações-limite do amor e da morte, da consciência e da loucura, da vigília e do sonho, da contemplação e da acção, algo de uma estrutura original dos homens para além do seu recorte no quotidiano, algo que mergulhe raízes no insondável de antigos mitos ou de uma memória arcaica, distante e todavia presente no seu comportamento actual. […] Um destes contos, «A Filha do Poeta», que narra a história de uma jovem que herda o espólio literário do pai, revestir-se-á de particular significado para uma das suas filhas, a Mafalda. Dois anos depois, volta a publicar; desta vez um primeiro ensaio de Filosofia da História, O Movimento do Homem — Drama, Movimento, Evolução (1963), em que o seu pensamento começa a afirmar-se e onde concilia a exigência filosófica com a mais rigorosa inteligência da teologia e da antropologia filosófica. Criado o Serviço de Bibliotecas da Fundação Calouste Gulbenkian, abraça esse projecto. Nele colaboram Branquinho da Fonseca, Domingos Monteiro, Luís Amaro e Orlando Vitorino. 1962 assinala o fim do jornal «57». 1963 — 1969 Funda e dirige uma nova publicação, a revista de Filosofia e Cultura «Espiral» de que, entre 1964 e 1966, serão publicados 13 números. Nela, é dominante a atenção reflexiva à cultura portuguesa e na qual é permanente a presença do Brasil, da África e do Oriente, não sendo também esquecidos os profundos laços espirituais que nos ligam à vizinha Galiza. A revista também funciona como editora, que dá à estampa vários títulos. Em 1964, publica Crítica e Verdade –Introdução à Actual Literatura Portuguesa, dedicado a David Mourão-Ferreira, Luiz Francisco Rebello e Urbano Tavares Rodrigues, com capa de Paulo Guilherme, através do qual o autor aparesenta e analisa as novas tendências da ficção narrativa e do teatro, em Portugal, e onde, culminando alguns anos de crítica literária vigilante e independente, se ocupa da obra de Tomás de Figueiredo, Joaquim Paço d'Arcos, Alves Redol, Fernando Namora, Manuel da Fonseca, Branquinho da Fonseca, Agustina Bessa-Luís, Urbano Tavares Rodrigues, Vergílio Ferreira, Alfredo Margarido, Domingues Monteiro, Natércia Freire, José Régio, Luiz Francisco Rebello, Bernardo Santareno, José Cardoso Pires e Luís de Sttau Monteiro, entre muitos outros. Na opinião de alguns contemportâneos, Quadros é dos melhores, senão o melhor, críticos literários da sua geração, com uma visão aberta, flexível e moderna da Literatura. Em 1965, a convite de Agostinho da Silva, desloca-se pela primeira vez (enquanto adulto) ao Brasil, proferindo lições e conferências sobre temas de filosofia e cultura portuguesa na Universidade de Brasília e noutros importantes centros culturais brasileiros como Rio de Janeiro e S. Paulo. É neste ano que termina o seu livro Histórias do Tempo de Deus, dedicado ao irmão — «Para o Fernando, meu irmão, longe mas sempre perto» — distinguido com o Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências e com o Prémio de Novelística da Casa da Imprensa. Na introdução, o autor fundamenta o título: Em nossa volta, na nossa cidade, na história que nos chama e à qual nos entregamos, em toda a intérmina fenomenologia do homem consciente e convivente levanta-se uma suspeita, desenha-se um enigma. Ainda e sempre, o tempo de Deus é o tempo da atenção. Atentos, vivamos. O tempo de Deus é hoje. Em 1966, publica Imitação do Homem, dedicado «À minha mãe, que me disse Poesia», singular livro de odes onde revela toda a sua inquietação sobre o enigma do ser: Se o homem é contradição e identidade, se o homem é vário e inconsciente, se o homem é bom e mau, se o homem é perene alteração, se o homem é repouso e evolução, abandono e vontade, acção e contemplação, egoísmo e ascetismo, se o homem simplesmente é, e se no seu ser cabe todo o universo, razão, assume-o simplesmente inteiro, dedica-te a pensá-lo no diverso e nada excluas, a sensação ou a fé […] Em 1966 morre Delfim Santos, com apenas 59 anos de idade, após dezenas de anos de actividade como professor, pedagogo e filósofo. Prossegue a sua função no Serviço de Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian que, durante mais de vinte anos, passará a constituir a sua principal actividade profissional. Esta função, que começa por ser de inspector, obriga-o a percorrer o país de Norte a Sul; nas deslocações, aproveita para conhecer a fundo o património artístico português e regista-o em centenas de slides que, anos mais tarde, se lhe revelarão preciosos para as suas lições de História de Arte. Ainda em 1966, desloca-se com a mulher a Espanha, para participar na Feira de Sevilha. Na segunda metade dos anos 60 e nos primeiros anos da década seguinte, publica obras ensaísticas como O Espírito da Cultura Portuguesa (1967), que, em grande parte, recolhe a sua colaboração em Espiral; Teoria da História em Portugal (1968-1969); a crónica das ideias Franco-Atirador (1970); Ficção e Espírito (1971); e ainda Pedro e o Mágico (1973), que lhe merece o Prémio Nacional de Literatura Infantil e onde numa das histórias, «Os Pirilampos», os seus próprios filhos António, Mafalda e Rita são os personagens. Em 1969, publica ainda, em estilo de reportagem, as impressões da sua viagem de barco à União Soviética –Uma Viagem à Rússia –durante a qual experimenta a aventura de ser detido por comprar umas escassas divisas no mercado negro, e de onde só pôde sair indicando às autoridades oficiais o traficante que lhas vendera. Mais tarde, confessa à família: Foi a primeira e única vez que denunciei alguém, e ainda hoje, de vez em quando, sinto remorsos. Mas 1969 é também o ano que assinala a realização de um dos seus sonhos mais públicos: o IADE. Com efeito, depois de um cruzeiro onde conhece alguns dos seus futuros sócios, e após visitas a escolas de arte e de design de Madrid, Barcelona e Bilbau, e sobretudo à Escola Politécnica de Design de Milão, com que estabelece acordos de intercâmbio e de pós-especialização, funda o IADE, inspirado num modelo espanhol, embora com moldes inéditos em Portugal. As iniciais correspondem, no início, a «Instituto de Arte e Decoração», mas passará a designar-se, anos depois, «Instituto de Artes Visuais Design e Marketing». Para o efeito, forma sociedade com a mulher juntamente com os espanhóis Francisco Carralero Saiz, António Perez de Castro e Julio Illa Ocaña, e ainda um grupo de amigos fiéis: o advogado Manuel Ferreira de Lima, o seu cunhado Neco Roquette e ainda Manuel Sebastião de Carvalho Daun e Lorena, actual Marquês de Pombal, cuja mãe aluga parte do palácio onde habita para a instalação da Escola. Este espaço, situado no n.º 70 da Rua do Alecrim, em Lisboa, actual sede cultural do Instituto, com uma monumental escadaria e algumas salas inteiramente revestidas de frescos, é parte de um palácio oitocentista que acolheu Junot durante as Invasões e que, antes de pertencer à família Daun e Lorena, já fora propriedade do assim conhecido Monteiro dos Milhões. Convida para director mestre Lima de Freitas, pintor cujas obras simbólicas muito admira e cuja amizade entabulara anos antes, a partir de uma relação epistolar, Desafia para professores alguns dos nomes mais prestigiados da época ligados à cultura e às artes plásticas: o escritor David Mourão-Ferreira, o arquitecto Costa Martins, e os mestres Manoel Lapa, Rafael Calado, Artur Rosa, Manuel Costa Cabral e João Vieira, entre outros. Mais tarde, o próprio Lima de Freitas ministrará um Curso Livre de Pintura nas instalações do IADE. A notícia da inauguração desperta o maior interesse junto da imprensa e do público, e o IADE, abrindo as inscrições com um curso de três anos de Decoração, e um Curso Básico de Cultura Portuguesa, além de dois cursos práticos de fotografia e cerâmica, esgota-as em poucos dias. A seu convite, os gigantes do design Bruno Munari, Claude Ternat e John David Bear deslocam-se propositadamente a Portugal, o primeiro para participar num seminário, os segundos para leccionar no IADE. A partir de 1971, será ele o director-geral da Escola, acumulando a função com o seu cargo na Gulbenkian e com a docência nas cadeiras de História de Arte e Cultura Portuguesa, que manterá ininterruptamente até ao ano de 1992, enquanto, na Universidade Católica Portuguesa, lecciona Deontologia da Comunicação. Mais tarde, o IADE amplia as suas instalações com o aluguer parcial de um edifício situado na Rua Capelo, n.º 18, junto ao Governo Civil de Lisboa, onde passa a ser ministrada a maioria dos cursos. Por esta época adquire uma bonita casa em Óbidos, dentro das muralhas do Castelo, onde escreve e convive com a família e os amigos, casa essa que será obrigado a vender, por razões finanaceiras, no ano da Revolução. 1970 — 1974 Por morte do escritor Domingos Monteiro, é nomeado Director das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Gulbenkian. A sua intensa actividade profissional não o impede, porém, de continuar a intervir constantemente na vida cultural portuguesa, proferindo conferências, participando em congressos, colóquios e seminários, colaborando regularmente na imprensa, e exercendo ao longo da vida, diversas funções ou cargos de relevante significado e responsabilidade, como os de membro da primeira Direcção da Sociedade Portuguesa de Autores de que foi um dos fundadores, Presidente da Comissão Nacional para o Ano Internacional da Alfabetização, representante do Ministério da Educação no Comité Nacional para a Década Mundial do Desenvolvimento Cultural, Director da Biblioteca Breve do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, membro da Direcção do Círculo Eça de Queiroz e membro do Conselho de Administração do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, membro-correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e da Academia Brasileira de Filosofia, membro da Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguesa, do Centro de Estudos Luso-Brasileiros, e do CELBRA, Centro de Estudos de Pensamento Luso-Brasileiro (Rio de Janeiro), professor-convidado da Universidade Gama Filho (Brasil) membro do Conselho de Administração da Fundação Lusíada e membro para Alta Autoridade da Comunicação Social, entre outros. Paralelamente, prossegue e realiza uma vasta obra no domínio do ensaísmo filosófico, da ficção e da poesia, ampliando e aprofundando o seu estudo da obra de Fernando Pessoa, de que será o mais profundo intérprete, e desenvolvendo uma séria, inovadora e complexa reflexão sobre Portugal e o significado mais secreto da sua cultura e do seu destino histórico e transcendente. Em 1973 realiza, a bordo do «Queen Frederica», um cruzeiro ao Mediterrâneo, na companhia da mulher e das duas filhas, empreendendo até 1975 outras viagens significativas, nomeadamente a Itália, a Espanha, à Grécia, ao Líbano e ao Egipto, em particular. Sendo homónimo de António Ferro, e perfilhando alguns valores comuns a seus pais, como um profundo sentido de patriotismo e uma inquebrantável crença nos valores portugueses, a Revolução não o poupou a ofensas, humilhações e dissabores que, longe de o afastarem do país, o mobilizaram no sentido de moralizar e galvanizar Portugal e os portugueses, no momento de caos que atravessavam, através da sua pena firme, serena e corajosa. 1975 — 1979 Nos anos seguintes a 1974, as suas preocupações intelectuais centram-se sobretudo na necessidade de preservar e actualizar, para além de todas as ideologias, a entidade de Portugal e dos portugueses, tanto em livros como em dezenas de artigos dispersos pela imprensa, onde chega a envolver-se em encarniçadas polémicas com figuras que, da margem esquerda, contribuem no seu entender para denegrir a imagem de Portugal e desmoralizar o seu povo «numa altura de grande fragilidade nacional». Depois do 25 de Abril, com os três filhos já casados, o casal toma a resolução de se mudar definitivamente para Cascais. Ainda nesse ano, que assinala a morte do filósofo José Marinho, escreve com intensa regularidade nos novos jornais «O Dia» e «O Tempo». Apoia Francisco da Gama Caeiro que, exilado no Brasil, cria um Mestrado de Filosofia Luso-Brasileira na Universidade Gama Filho (Rio de Janeiro), pelo que é nomeado professor-convidado desta universidade. Em Junho de 1976, viaja com a mulher e a mãe até à Costa Brava e à Provença, conhecendo ali um lugar extraordinário: Les Baux, a pitoresca cidade medieval da Provença. Aproveita a ocasião para visitar também Cadaqués, e conversa com Dali e Gala na sua casa de Port Ligat. No mesmo Verão, desloca-se à Bélgica para visitar o seu grande amigo Pierre-Jean Goemaere, no seu castelo de Waterloo, a quem António Ferro, durante a Guerra, oferecera refúgio em sua casa durante mais de um ano, enquanto o seu pai era perseguido por ter escrito um livro de combate à ideologia nazi. Neste ano, dedica livros a dois dos seus filhos: Portugal entre Ontem e Amanhã (1976), dedicado «Ao meu filho António», e A Arte de Continuar Português (1978), este «À Rita, minha filha mais nova, e à sua geração para que continue Portugal». 1980 — 1987 A partir dos anos 80, começa a registar em álbum fragmentos da sua vida pessoal e literária. Num deles, deixa a seguinte introdução: «Estes álbuns não são narcisistas, simplesmente o seu autor, vosso pai, avô, bisavô, etc., divertia-se, nas poucas noites calmas do ano, a registar aqui, para vocês, os acontecimentos (alguns…) da sua vida…» Em 1980 publica um longo poema chamado Ó Portugal, Ser Profundo (Ed. Espiral, Lisboa), um épico e lancinante grito patriótico de exortação à transcendência dos portugueses, bem expresso na última quadra: Ó meu Portugal que foste, Que foste grande no Mundo, Abre as asas, abre as velas, Revela o teu ser profundo! A partir dos anos 80, estabilizado o novo regime e consolidadas as suas instituições políticas, regressa, decididamente, aos seus temas especulativos fundamentais, cujo núcleo problemático se inscreve nos domínios da Filosofia da História, do Símbolo e do Mito, e, assim, vai escrevendo e publicando Introdução à Filosofia da História (1982) e Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista (1982-1983). Em 1981, decide reformar-se do seu cargo na Fundação Gulbenkian para passar a dedicar-se mais intensamente à sua obra, mantendo, no entanto, as suas funções docentes no IADE e na Universidade Católica. A 9 de Outubro de 1981, com a morte de Álvaro Ribeiro, acentua-se a irregularidade dos convívios do grupo inicial da «Filosofia Portuguesa». No IADE, leva a efeito diversos ciclos de palestras, cujas comunicações entrega prioritariamente a companheiros de grupo e a novos aderentes. Em 1984, publica Fernando Pessoa, Vida, Personalidade e Génio, pelo que recebe (juntamente com os escritores Lídia Jorge e Vasco da Graça Moura) o prémio do Município de Lisboa, na categoria de ensaio. No ano lectivo de 1984/1985, são legalizados no IADE dois novos cursos: o de «Design de Moda» e o de «Técnicos de Publicidade» — que a partir de 1987 se chamará «Curso de Marketing e Publicidade» —, este último com uma extraordinária procura por parte do público estudantil e que, juntamente com o «Curso de Design», com opções de especialização em design visual, industrial e de interiores, recebem em 1990 o grau de bacharelato do ensino superior público. Em 1985, na noite de 13 para 14 de Agosto, participa num acontecimento inédito — «A Vigília de Armas em Aljubarrota» —, evento simbólico organizado nos campos da Batalha pelos poetas Palma-Dias e Paulo Borges e o pintor José Ralha. Juntamente com Orlando Vitorino promove, no final, um vivo debate que teve por ponto de partida o movimento da Filosofia Portuguesa. Em Novembro, participa, em São Paulo, no I Colóquio Luso-Brasileiro de Estudos Pessoanos. Visita Embu, com Soares Amora, João Alves das Neves, Teresa Rita Lopes e João Gaspar Simões, entre outros. Ali, realiza numerosas conferências sobre Fernando Pessoa apoiadas pela Biblioteca Nacional e a Fundação Cultural Brasil-Portugal, e ainda na Faculdade Federal Fluminense, em Niterói. Visita ainda São Salvador da Baía, que provoca nele uma forte ressonância interior, onde participa na procissão do Senhor dos Navegantes, assiste a um espectáculo de «capoeira» e passa uma tarde em casa do escritor Jorge Amado, trocando ideias. É ainda na Baía, numa rua que deixou fotografada, que conhece uma figura que o impressiona fortemente: O célebre Frei Elyseu, que leu na minha alma e no meu futuro, através de um sistema que desenvolve há 52 anos. Homem extraordinário, que fez sozinho o extraordinário museu do convento, de arte sacra e pedras preciosas. Desloca-se ainda a Fortaleza, no Ceará, onde realiza a conferência «Fernando Pessoa, um Poeta-Profeta-Alquimista do Verbo na Cultura Portuguesa do Século XX». No Recife, onde fica instalado «num excelente hotel frente à praia», é recebido com uma calorosa saudação no Diário de Pernambuco. É aqui que conhece e trava relações de amizade e correspondência com o escritor brasileiro Ariano Suassuna, em cuja fotografia anota: «Amigo, irmão…» Suassuna e a mulher apresentam-no ao singular escultor Franago Brénard, cujo museu, instalado na velha fábrica de seu pai, o maravilha. Conhece ainda Olinda, «uma cidade tradicional portuguesa a dois passos do Recife, onde desembarcaram os primeiros povoadores», e deixa-se encantar pela cidade. Aqui, janta num restaurante chamado l’Atelier, em cujo cartão regista: «O restaurante onde melhor comi no Brasil». Visita ainda a Bahia e testemunha o culto ao Senhor do Bomfim, a maior devoção da cidade. Em 1986, escreve Portugal, Razão e Mistério (1986-1987), «in memoriam de Álvaro Ribeiro, ao mestre, ao sábio e ao amigo», o primeiro livro de uma trilogia cume e síntese da sua hermenêutica do Portugal mais profundo, essencial e secreto, onde desenvolve um conceito de «patriosofia», isto é, o conhecimento da Pátria, que é genuinamente seu. O livro sustenta-se semanas consecutivas nos tops de vendas portuguesas. Participa com grande gosto pessoal numa conferência sobre os painéis de Nuno Gonçalves, de que possuía uma réplica em miniatura, outra das suas fontes de mistério e deslumbramento, na capela do Espírito Santo, no Paço de Sintra. Segundo ele, estes painéis, que constituiriam o políptico da Religião de Avis, estariam relacionados com a Festa da Coroação do Imperador do Espírito Santo, que se realizava naquela Capela. A tese, integralmente fundamentada, empolga a assistência. Na Universidade Católica Portuguesa, colabora com o 2.º Curso de Verão para estudantes luso-americanos, ao longo de 3 sessões a que dá o nome: «A Cultura Portuguesa: Projecto Universal e Dificuldades Históricas». Colabora com Abel de Lacerda Botelho na Fundação Lusíada, tendo redigido a parte doutrinal dos respectivos Estatutos. Ocupa o cargo de membro do Conselho de Administração da mesma Fundação. Em Fevereiro de 1986, participa no III Encontro Internacional de Tomar sobre «O Imaginário e o Esoterismo Europeu e o Imaginário da Cultura Portuguesa». Aqui, o autor faz uma deslumbrante comunicação intitulada «Em demanda de Prestes João». Em Maio de 1986, em Roma, a dimensão teatral da obra de Fernando Pessoa é o tema central de um encontro internacional sobre o poeta português, com o título genérico de «Longitude Pessoa», onde António Quadros, acompanhado por Tabucchi, Prado Coelho e João Gaspar Simões, presta novo e decisivo contributo para o conhecimento internacional do Poeta. Em Setembro desse ano, publica no «Jornal de Letras» um extenso artigo sobre Agostinho da Silva, a quem chama «Profeta do Terceiro Milénio», dissertando sobre o seu carisma. Em Novembro, volta ao Brasil para dar o seu curso de cultura e filosofia portuguesa e uma conferência sobre Miguel Torga na Universidade Gama Filho, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. Faz conferências também em Brasília, na Embaixada de Portugal, e ainda no Rio, na Academia Brasileira de Letras e na Fundação Brasil-Portugal. As iniciativas são noticiadas em toda a imprensa brasileira, e a escritora portuguesa Leonor Xavier, então jornalista no «Mundo Português», faz-lhe uma longa entrevista. É aqui que recebe um convite inesperado, por parte do coronel Carlos Freitas, marido de uma sua aluna do curso de filosofia portuguesa: a visita ao 1.º Batalhão de Engenharia de Combate, localizada no antigo palácio de D. João VI, depois convento de Jesuítas e finalmente palácio de D. Pedro I, imperador do Brasil. É recebido com honras militares e uma escola de samba local desfila em sua homenagem. Nesse mesmo dia, escreve à mãe: «Tratam-me aqui com uma importância que nunca senti em Portugal.» Durante a viagem, em que conhece a biblioteca da Universidade Gama Filho, visita o Rio de Janeiro com mais atenção do que nunca. Aproveita a ocasião para se encontrar com o seu irmão Fernando, então radicado no Brasil, bem como rever a sua cunhada Dominique e os seus sobrinhos Vicente e Stephanie, que muito estima. No próprio dia da chegada do Brasil, profere uma conferência na Universidade Católica em memória de Leonardo Coimbra, que considera um dos mais importantes pensadores modernos, no 50º aniversário da sua morte: «Leonardo Coimbra, Mestre dos Mestres». A 4 de Dezembro, participa na conferência inaugural do III Congresso de Turismo, em Guimarães, com uma palestra sobre «O impacto do Turismo na Sociedade Portuguesa». Acompanha-o o Eng.º Álvaro Roquette, primo direito de sua mulher, que ocupa, à data, o cargo de Director do Secretariado Nacional de Cultura Popular e Turismo (SNI). Ainda neste mês, profere no Palácio de Sintra uma conferência sobre uma das temáticas que mais o interessam e constituem matéria recorrente das suas investigações: «A Coroação do Menino Imperador do Espírito Santo», uma grande tradição pentecostal portuguesa ainda viva no Penedo, perto de Sintra, em Tomar, nos Açores e no Brasil, expressa popularmente através de uma festa criada por D. Dinis e Isabel, em fins do século XIII. Em 1987, depois da Obra Poética de Fernando Pessoa, em sete volumes, que organiza em princípios de 1986 para a Editora Europa-América, chega a vez da Obra em Prosa de Fernando Pessoa — Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas. A respeito deste livro, explica: É um Fernando Pessoa humano, profundamente humano, em sua vida, paixão e morte, que se nos desvela nesta colectânea diarística epistolográfica e autobiográfica. Sobre Pessoa, o escritor esclarece que tem sido «muito menos um investigador do que um intérprete ou um pensador interessado no que ela apresenta em si própria e no contexto da cultura portuguesa». O seu estudo da obra de Fernando Pessoa representou, toda a sua vida, um trabalho insano, «quer pelos manuscritos de Fernando Pessoa oferecerem grandes dificuldades de leituras quer porque houve por vezes escolhas que fragmentam textos já de si fragmentários ou critérios de ordenação que podem e devem ser revistos no futuro». As palavras são suas. No Instituto D. João de Castro, colabora com os professores Almerindo Lessa e Martim de Albuquerque e Luís Forjaz Trigueiros, Pinharanda Gomes, Henrique Barrilaro Ruas e João Bigotte Chorão, e ainda Mestre Lima de Freitas, num fulcral colóquio sobre «Cumprir Portugal» e que constitui uma valorosa meditação sobre a identidade portuguesa. Em Maio, faz um balanço do percurso do IADE na revista «Dimensão»; é um longo artigo que relembra os seus fundamentos pedagógicos face ao novo desafio da então chamada CEE. Em nota divulgada à imprensa, a sua proposta, enquanto director do IADE, é : responder ao desafio formando profissionais de nível em áreas fundamentais, mas profissionais, a que não faltem uma formação universalista, humanística, europeia, a par de uma consciência das nossas raízes portuguesas. Para continuar a sua campanha de sensibilização junto das empresas e industriais portugueses, o IADE, sempre dirigido por António Quadros, cria o DIP, um departamento de integração profissional que coloca e orienta profissionalmente cerca de metade dos seus alunos, número para o qual concorrem, igualmente, concursos e colaborações várias com as indústrias nacionais, visando colocá-los perante casos concretos do quotidiano empresarial. António Roquette Ferro, seu filho, virá, com um êxito assinalável, a dirigir e a dinamizar este departamento. Neste âmbito, António Quadros não só enfrenta a ameaça do Mercado Comum como a desafia: Fazemos com que a distância entre as condições já existentes nos países ricos da C.E.E. sejam um desafio estimulante, obrigando-nos a um enorme esforço de modernização. Tal o sentido que se procura dar à formação de designers no IADE, privilegiando, para além da metodologia e da preparação básica, o design de interiores, o design gráfico, o design industrial e bem assim o design de moda. Se em todos estes campos o IADE foi pioneiro, ou em absoluto, ou na orientação dada, se o IADE tem feito todos os possíveis, através do seu Departamento de Integração Profissional, para aproximar cada vez mais a Escola da Indústria, através de Concursos, Seminários, Visitas, Estágios, etc., urge também que, quer o Estado quer as Indústrias, se aproximem das Escolas, compreendendo que é nelas que poderão basear-se o desenvolvimento económico almejado e a resposta duradoura e rápida ao desafio da CEE. E faz lembrar o seu pai ao concluir: É para a Vitória que o IADE trabalha — com os seus próprios recursos e apoiando-se unicamente no prestígio adquirido, na procura crescente dos alunos, na sua iniciativa, e na capacidade e empenhamento de todos quantos no Instituto trabalham, ensinam e estudam. É na vitória e só na vitória que apostamos — na certeza de ser à juventude, se bem preparada, estimulada e apoiada, que caberá construir o Portugal de amanhã. Com selecção e prefácio de Romeu de Melo, na colecção «Breviários de Cultura», e o título de Liberdade do Pensamento Português (Edições Terra Livre), é publicada uma antologia de textos dos maiores pensadores portugueses, entre os quais António Quadros. O Departamento de Comunicação Social da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa de Lisboa, em colaboração com o Secretariado Nacional das Comunicações Sociais da Igreja, leva a efeito, nas instalações da U.C.P., na Palma de Cima (Lisboa), umas jornadas de estudo e reflexão sobre «Os Meios de Comunicação Social e a Promoção da Justiça e da Paz», onde presta um relevante contributo. Publica o II volume de Portugal, Razão e Mistério, e compila elementos para o 3.º volume, que chega a iniciar, deixando-o, todavia, incompleto. Pinharanda Gomes («Diário do Minho», 20.5.1987) classifica esta obra de António Quadros como «O mais elucidado exercício especulativo sobre a História de Portugal». Para assinalar o encerramento das comemorações dos 80 anos do nascimento de Delfim Santos, profere, na Escola Delfim Santos, uma palestra sobre a vida e obra daquele que foi, além de grande amigo, o seu primeiro mestre de filosofia. A 24 de Outubro deste ano, na igreja do histórico Mosteiro do Espinheiro, efectua-se uma cerimónia inédita na cidade de Évora: a investidura de 14 novos cavaleiros Templários. Fundada em 1118 por nove cavaleiros franceses e criada no local onde existiu o templo de Salomão, em Jerusalém, destinava-se esta Ordem a proteger os peregrinos e a defender os Lugares Santos da Palestina. Por esta ocasião, o escritor profere, no Monte do Borraseiro, propriedade do casal Maria do Carmo e Luís Gonzalez, uma apaixonante conferência subordinada ao tema «A Ordem dos Templários e o Quinto Império». Ainda este mês, inaugura a biblioteca João Paulo II na Universidade Católica, e profere uma conferência sobre Eça no Círculo Eça de Queiroz. A revista «Nova Renascença» promove no Porto, entre 12 a 19 de Dezembro, as comemorações do 75.º Aniversário do movimento Renascença Portuguesa. Assim, «A Renascença Portuguesa e a Nova Renascença» foi o tema da mesa-redonda que encerrou um ciclo de conferências na Fundação Eng.º António de Almeida, onde foram oradores, além de António Quadros, o professor Agostinho da Silva, José Augusto Seabra, António Braz Teixeira e Alfredo Ribeiro dos Santos. Na sequência da inauguração do 1.º Curso de Design de Moda, o IADE inicia os seus «Acontecimentos da Moda», evento difícil de ignorar pela sua competência e efeito, que repetirá todos anos vindouros, com o desfile dos trabalhos dos finalistas e utilizando modelos profissionais, em alguns dos mais belos espaços de Lisboa: do Centro de Arte Moderna ao Planetário. Criativo, sociável e dinamizador como o avô, o seu filho António presta-lhe grande auxílio na realização e promoção de todos os eventos públicos, contribuindo decisivamente para o prestígio crescente da imagem do IADE. Com a presença do ministro da Educação, Eng.º Roberto Carneiro, e de outras altas individualidades ligadas às artes e às letras, inaugura no IADE uma exposição de design industrial. É Comissário da organização das comemorações do centenário de Fernando Pessoa do Município de Lisboa. 1988 — 1992 Em Maio de 1988, é jurado do grande prémio de romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, que atribui o prémio a Vergílio Ferreira, pelo seu livro Até ao Fim. Coordena um projecto de publicação de cinco volumes que representam a primeira série de uma colecção de traduções em chinês de obras de autores portugueses a ser iniciada em Pequim, no âmbito de um acordo de cooperação entre a Fundação Calouste Gulbenkian e o Instituto de Literatura Estrangeira da Academia das Ciências Sociais da China; Luís de Camões, Alexandre Herculano, Camilo, Carlos Malheiro Dias e Eça de Queirós são os primeiros autores traduzidos. Comparece a um colóquio no Funchal sobre filosofia portuguesa, acompanhado por dois dos seus grandes amigos e correligionários: António Braz Teixeira e Orlando Vitorino. Em Junho, viaja até Paris por uma semana para comparecer, no Palácio da Unesco, à comemoração do centenário do nascimento de Fernando Pessoa; por esta ocasião, toma chá em casa de Vieira da Silva e escuta, da sua boca, a seguinte revelação: O seu pai foi o primeiro que escreveu sobre mim. Com efeito, vem a descobrir, na «Ilustração Portuguesa» (n.º 833, II série), um profético artigo assinado por seu pai: Lena é uma artista de 13 anos que revela nos seus primeiros desenhos admiráveis qualidades de movimento e de ritmo. […] Quem desenha assim, aos 13 anos, não deve deixar de trabalhar. Arde o Chiado e o escritor é chamado a depor no jornal «O Século». O seu tom é de sentido pesar: Lisboa é tão vulnerável! É parte da alma de homens como Eça e Pessoa que fica destruída. São capítulos bastante importantes da vida cultural de Lisboa e do país consumidos numa catástrofe que nunca mais pode ser reparada. Logo a seguir, parte para Friburgo, na Suíça, para comparecer a um colóquio sobre filosofia portuguesa; é um velho cavalo de batalha, para que já repta as novas gerações: Mas não desanimemos, porque a filosofia portuguesa, em seu labor modesto mas persistente, é uma poderosa energia intelectual na cultura viandante, que é a nossa, e o pensamento criacionista tem a longo prazo poder sobre a realidade social e humana. Perdem-se batalhas no terreno da cultura, mas novas gerações de pensadores aí estão e estarão a recolher o testemunho para o levar mais longe. A ideia não tem pressa, Memórias das Origens, Saudades do Futuro (1981). Em 1988, em entrevista a Fernando Dacosta («O Jornal», 21.1.1988), confessa a sua lástima pela subordinação dos portugueses ao pensamento estrangeiro: Houve, a seguir ao Ultimatum, e mesmo à implantação da República, um movimento fortíssimo de escritores, e escritores democratas, que procuraram fomentar valores genuinamente portugueses. Impressiona-nos não ver um movimento desses. Há pessoas isoladas que tentam fazer umas coisas, só que os complexos, os medos de se ser nacionalista são muito fortes, muito inibidores. Vejam-se as obras que vão saindo entre nós no campo do pensamento: não citam nenhum autor português, nem na bibliografia, nem nos rodapés, nada, ninguém é merecedor de ser referido, só estrangeiros, é como se não existisse em Portugal ninguém capaz de pensar. E quando Dacosta, provocando-o, lhe pergunta se existe um pensamento português próprio, emociona-se: Basta termos uma língua própria para termos um pensamento próprio. A língua está para o pensamento como a potência para o acto. Se possuímos uma língua riquíssima, antiquíssima, podemos ter igualmente um pensamento rico, como temos uma poesia, uma literatura. Criámos conceitos francamente originais… era mais importante para os estudiosos portugueses dedicarem-se a eles do que integrarem-se, como faz a maioria, em escolas francesas ou alemãs. Dá-me muita pena ver desperdiçar um capital, a língua, que é o nosso maior património. O seu amor às artes plásticas, desde os seus primórdios como crítico, nunca é esquecido ou estagnado. Faz frequentes críticas a pintores, e sobretudo a artistas portugueses. O arquitecto Raúl Lino, e os pintores Lima de Freitas, Margarida Cepêda, Espiga Pinto e Felippa Lobato, entre outros, são alguns dos nomes cujo imaginário e simbolismo procurou decifrar. A 2 de Março, no encerramento da exposição de pintura da Madre Teresa Saldanha, por ocasião do 150º aniversário do seu nascimento, profere, na Fundação Gulbenkian, a palestra «Romantismo e Misticismo na Pintura de Teresa Saldanha» Colabora na fundação da revista de filosofia portuguesa «Leonardo». Na sessão de lançamento, insiste: «Não é possível o progresso em Portugal sem o primado do pensamento, da razão, da filosofia.» A convite do professor Perfecto Quadrado, viaja até Palma para participar no colóquio «Fernando Pessoa na Universidade das Ilhas Baleares em Palma», onde aproveita para visitar todos os lugares alusivos à memória do filósofo e místico Raimundo Lullio, viajando ainda até Valdemosa, para conhecer a casa onde, entre 1838 e 1839, Georges Sand, convalescente de tuberculose, passa alguns meses na companhia de Chopin. No Forum Picoas, participa no terceiro debate da Semana Cultural da Associação Portuguesa de Escritores, e ainda num outro, no mesmo local, por ocasião do lançamento de um livro de selos dos CTT sobre Amadeo de Sousa-Cardoso e Fernando Pessoa, intitulado «Portugal em Conversa de Génios», onde especula sobre um possível diálogo entre o pintor e o poeta. Guilherme d’Oliveira Martins apela, num artigo grato a toda a família, no «Diário de Notícias», à necessidade de salvar «a casa histórica da Calçada dos Caetanos», onde o seu avô viveu e António Quadros cresceu, terminando nestes termos: «A Velha Casa merece a nossa luta — pela vida dos que lá fizeram pedaços marcantes da nossa história colectiva». O artigo teve efeito imediato, e a Câmara de Lisboa, passado não muito tempo, inicia importantes obras de restauro no número 7 da Rua João Pereira da Rosa, antiga Calçada dos Caetanos. Viaja até São Paulo, Brasil, com a sua mulher, para participar no 4.º Congresso Internacional dos Estudos Pessoanos, onde, juntamente com José Saramago, Joel Serrão, David Mourão-Ferreira, Óscar Lopes e José Augusto Seabra, apresenta uma importante comunicação. É igualmente convidado a proferir conferências na Universidade Gama Filho, na Casa da Cultura «Laura Alvim», na Universidade de Campinas e na Universidade Católica de Petrópolis. Aí, assiste a uma singular exposição de tapeçaria e porcelana dedicadas a Fernando Pessoa. O casal é recebido por Ana Maria Moog Rodrigues, com quem inicia grande amizade. Depois de Petrópolis, a convite de Amélia e Vicente Barreto, o casal passa um fim de semana no seu maravilhoso e inesquecível Vale da Boa Esperança. Em 1988 escreve O Primeiro Modernismo Português — Vanguarda e Tradição e ainda um estudo aprofundado sobre a obra de Camilo Pessanha, para a Editora Europa-América. Em 1989, publica A Ideia de Portugal na Literatura Portuguesa dos Últimos Cem Anos, volume inaugural das edições da Fundação Lusíada, de que foi administrador, onde aborda «os temas fundamentais do devir mental português, no cruzamento da história das ideias com a história da literatura». No mesmo ano, dedicado à memória de José Marinho, e ainda a Agostinho da Silva, a Dalila Pereira da Costa e a Ariano Suassuna, publica Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista. Organizado pela Ala Juvenil da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, decorre um ciclo de conferências dedicadas à divulgação e ao estudo do pensamento português, na convicção de que a autonomia do pensamento constitui suporte essencial à independência nacionalista. Assim, profere no Salão Nobre do Palácio da Independência, no largo de São Domingos, uma conferência intitulada «Autonomia Mental e Autonomia Nacional ou o Problema da Filosofia Portuguesa e a Universalidade do Pensamento». Lê um original de Rita, sua filha mais nova, e dá-lhe os primeiros conselhos literários. Cinquenta alunos da «Institucion Artes Decorativas de Madrid y Barcelona», deslocam-se a Portugal com o objectivo de visitar o IADE. Antes do colóquio pessoano de Nova Orleães, passa oito dias em Nova Iorque com o casal Lima de Freitas. Ali, visita o Metropolitan Museum, assistindo a espectáculos de jazz e a peças da Broadway. Em 1990, é nomeado Presidente da Comissão Nacional para o Ano Internacional da Alfabetização e Representante do Ministério da Educação para a Década Mundial do Desenvolvimento Cultural. Nos meses de Junho e Julho, participa no Colóquio Tobias Barreto e num seminário sobre filosofias nacionais, promovido pelo Instituto Interdisciplinar de História das Ideias da Universidade Nova e Lisboa. Nestes mesmos meses, na Separata de «O Tripeiro» (n.os 6 e 7) publica Introdução à Estrutura do Universo Camiliano. Está presente no lançamento do romance de estreia de sua filha Rita Ferro, O Nó na Garganta. Em 1991, por ocasião do Colóquio Anteriano de Ponta Delgada, a que comparece, revela, nuns «poemetos» escritos a propósito (14.10.1991), conservar intactos, o seu espírito e o seu humor, bem como uma certa aversão às chumbadas académicas: Coitado do pobre Antero, Desnudado, analisado, Não já o corpo, seu espírito, Dissecado, autopsiado. Matou-se, mas era livre, Liberdade era o seu bem, Agora sua alma triste, Já nem liberdade tem. O que não disse, ele disse, O que escreveu não pensou, O que disse ele desdisse, O que pensou não amou. Coitado do pobre Antero! Quero vê-lo, mas não posso… Roubámos-lhe a liberdade, Já não é dele, é só nosso. Ainda no mesmo ano, organiza, selecciona e comenta a correspondência de Mário de Sá Carneiro e escreve aindaTrovas para o Menino Imperador no Dia de Pentecostes, dedicando-as a Agostinho da Silva, a João Carlos Raposo Nunes, poeta de Setúbal, e ainda «a todos os irmãos dos Impérios do Espírito Santo nos Açores, Continente, Brasil e E.U.A.», elucidando os leitores sobre as festas da «Coroação», únicas no mundo e só realizadas em espaços de origem lusíada: Não as vejamos como formas de folclore. São herança nossa. Um testemunho recebido, a cumprir e a transmitir. Festas proféticas de uma Idade de Amor e de Fraternidade Universais. Entre 16 e 20 de Setembro de 1991, em Recife e em Salvador (Brasil), participa no colóquio Antero de Quental, no qual apresenta a comunicação «Antero de Quental, do Poeta-Filósofo ao Poeta-Religioso –A Questa, a Odisseia, a Peregrinação», posteriormente publicada pela Universidade dos Açores (Ponta Delgada, 1993). Regressa à criação ficcional, agora com um romance inspirado nos agónicos últimos dias da existência do filósofo Sampaio Bruno: Uma Frescura de Asas (1991), livro de certo modo premonitório da sua própria morte e que termina assim: Tento em vão abrir os olhos. Há como que uma fina volúpia neste estonteamento, nesta nebulosidade. Batem à porta. Quem está aí? Sinto uma mão que, subtil, pousa no meu ombro. Escuto uma voz com uma inflexão recôndita e meiga. Conheço-a. Um frémito, uma aragem, uma vaga claridade. Alguém me disse um dia: vem, João. Outrem me solicita, agora: vem. É uma voz interior ou exterior? Há uma sombra morna e doce, há um perfumoso afago de cabelos inefáveis. Há uma frescura de asas. Há uma vaporosa, ondulosa coluna que me leva consigo, condescendente nos flutuantes movimentos do meu corpo. Vou. Este livro é escrito já no final da vida, na casa que comprara anos antes, o «Pomar de Santo António», em Vale de Óbidos, Concelho de Rio Maior, e onde passa gratos períodos escrevendo e convivendo com a família, os netos, os amigos. Esta casa é actualmente a sede da Fundação António Quadros, criada em Janeiro de 2009, por sua filha Mafalda Ferro. É aqui também que termina, já quase cego, o seu último romance, A Paixão de Fernando P., inspirado no amor de Fernando Pessoa por Ofélia. Em Julho de 1992, em Lisboa, com Miguel Reale, António Paim, Francisco da Gama Caeiro, José Esteves Pereira, Afonso Botelho, António Braz Teixeira, Pinharanda Gomes, Paul Mercadante, Ana Maria Moog Rodrigues, Constança Marcondes César, Eduardo Abranches de Soveral, Alexandre Fradique Morujão, e outros, é um dos 24 fundadores do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, de cuja direcção é, depois, eleito vogal. Já gravemente doente, publica Estruturas Simbólicas do Imaginário na Literatura Portuguesa, dedicado a Gilbert Durand, «que soube discernir e amar alguns dos valores mais profundos da literatura e da arte portuguesas». Alma naturalmente generosa, espírito profundamente tolerante, personalidade aberta ao mundo e às mais diversas expressões culturais, António Quadros, embora radicalmente centrado em Portugal e no pensamento e na cultura portugueses, revelou sempre um permanente interesse e atenção pelas culturas estrangeiras, em especial por aquelas que maiores afinidades espirituais apresentavam com as da sua pátria, como inequivocamente o testemunham os seus livros. Para além do inesgotável valor intrínseco da sua vasta obra de pensador, ensaísta, crítico, poeta, ficcionista, são possivelmente, estes traços do seu carácter profundamente humano que explicam os testemunhos de reconhecimento de que foi alvo, em Portugal e no Brasil, nos últimos anos da sua vida. De assinalar também a sua significativa actividade como tradutor de Georges Duhamel, André Maurois, Jean Cocteau e Albert Camus, menos conhecida do grande público. Passa a seu filho António a responsabilidade do cargo de director-geral do IADE e distribui parte das suas acções na sociedade entre o filho e Madalena Ferreira Jordão, amiga, colaboradora insubstituível e, também, então, secretária-geral do Instituto. Doze dias antes de morrer, em entrevista a Antónia Sousa, (Diário de Notícias, 11.3.1993), exorta pela última vez os portugueses: Acreditem em Portugal, porque Portugal está no mais fundo de cada um de vós e sem Portugal sereis menos do que sois. Quando é hospitalizado, leva dois livros consigo, que a família não volta a localizar: Verbo Escuro, de Teixeira de Pascoaes, e Húmus, de Raúl Brandão. O Padre Vaz Pinto, capelão do Hospital da CUF, presta-lhe o último conforto espiritual, mas, a avaliar pela serenidade e confiança que aparenta, já se encontra preparado: nos últimos dias centra-se exclusivamente na família, dando-lhe uma lição de verdadeira dignidade no sofrimento. Morre no hospital, depois de receber os últimos sacramentos, vítima de tumor cerebral, no dia 21 de Março de 1993, dia do começo da Primavera. Tinha 69 anos. Deixou inconsoláveis, além da mãe, do irmão e da viúva, sua companheira de cerca de meio século, três filhos e oito netos, com quem manteve, durante toda a vida, uma deslumbrante relação de ternura e conselho sábio. Partiu na «vaga negra» que vitimou, no mesmo mês, Manuel da Fonseca, Rui Nogar, Alberto Franco Nogueira, Natália Correia e António José Saraiva. O acto fúnebre teve lugar no cemitério do Alto de S. João, após missa de corpo presente. Celebrou a missa o mesmo padre que o casou, Pedro Gamboa, que, durante o elogio fúnebre, se referiu a ele como «um homem que não tinha inimigos». Sua mãe, Fernanda de Castro, imobilizada por doença grave está impedida de comparecer ao funeral e sobreviver-lhe-á um ano. Três dias depois, na Assembleia da República, o Secretário João Salgado submete à votação dois votos de pesar pela sua morte, proferindo no primeiro: O escritor António Quadros, figura destacada da corrente de pensamento denominada Filosofia portuguesa, consagrou a sua vida e a sua obra a estudar e a pensar Portugal, a sua razão, o seu mistério, o seu destino. Espírito aberto e tolerante, foi um homem generoso que privilegiou o debate de ideias e mereceu o respeito de diferentes quadrantes da vida cultural portuguesa. A sua morte é uma perda de vulto para a nossa literatura e para a nossa cultura. A Assembleia da República manifesta o seu pesar pela morte do escritor António Quadros e apresenta condolências à sua família. E, no segundo: António Quadros, falecido no passado dia 21, fica como uma referência forte na corrente da filosofia portuguesa, aliando na sua vastíssima obra a dedicação à investigação, na área da cultura, com a assumida missão pedagógica e a adesão a um conceito transcendente de portugalidade. A Assembleia da República manifesta o seu respeito e admiração pelo ilustre desaparecido e apresenta pêsames à família enlutada. Os votos de pesar foram aprovados por unanimidade, e, para se pronunciarem sobre eles, inscreveram-se os deputados Manuel Alegre (PS), Rui Carp (PSD), Adriano Moreira (CDS), Manuel Sérgio (PSN), Octávio Teixeira (PCP) e ainda André Martins (Os Verdes). Depois de um aplauso geral, a Câmara guardou, de pé, um minuto de silêncio.
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