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Newsletter N.º 232 / 14 de Junho de 2026
Direcção Mafalda Ferro Edição Fundação António Quadros

ÍNDICE

01 — Colóquio António Ferro, 70 anos depois da sua morte. Convite e Programa.

02 — “A minha alma é lânguida e inerme”: os 100 anos da morte de Camilo Pessanha, por António Coito

03 — No centenário da sua morte: Camilo Pessanha, o simbolista: Está tudo a acabar..., por António Quadros

04 — Inês Guerreiro e Sarah Affonso, artistas, amigas, mestra e discípula, em torno de Fernanda de Castro, por Mafalda Ferro

05 — Inês Guerreiro, por Francisco Leote Almeida Dias

06 — 130 anos depois do seu nascimento, lembramos Leitão de Barros, as suas marchas populares e muito mais, por Mafalda Ferro

07 — Leitão de Barros e os "Náufragos" de Fernanda de Castro, por Mafalda Ferro

08 — Livraria António Quadros, Obra em Promoção até 14 de Julho de 2026: "António Ferro 120 anos. Actas", coordenação de Mafalda Ferro.

EDITORIAL, por Mafalda Ferro

António Ferro, Camilo Pessanha, António Quadros,
Leitão de Barros, Inês Guerreiro, Sarah Affonso, Fernanda de Castro


Lembramos hoje, na presente newsletter, a realização do colóquio «António Ferro, 70 anos depois da sua morte» que se realizará em Lisboa e em Rio Maior nos dias 19 e 20 de Junho próximos. A todos, convidamos.

Solicitamos, a quantos, no dia 20, em Rio Maior, quiserem almoçar ao pé da Fundação, no «Bistro Bellini», que nos avisem para que posssamos reservar o seu lugar. Brevemente, enviaremos, aos interessados, outros pormenores.

Destacamos ainda personalidades como Camilo Pessanha, 100 anos depois da sua morte, Leitão de Barros, 130 anos depois do seu nascimento e Inês Guerreiro, 110 anos depois do seu nascimento, passando por obras de António Quadros e de Fernanda de Castro.

Anunciamos a nossa próxima exposição, sobre as pintoras modernistas Inês Guerreiro e Sarah Affonso, em torno de Fernanda de Castro, a inaugurar no dia 28 de Julho de 2026.

Na nossa livraria, em promoção este mês: "António Ferro 120 anos. Actas", coordenação de Mafalda Ferro e edição há 10 anos pela Fundação António Quadros e pela Texto Editores. A obra reúne o registo das acções realizadas em homenagem a António Ferro durante o ano de 2015, 120 anos depois do seu nascimento, com comunicações de Ana Filomena Figueiredo, António Cardiello, Ernesto Castro Leal, Guilherme Oliveira Martins¸ José Carlos Calazans, José Guilherme Victorino¸ Lauro António¸ Madalena Ferreira Jordão¸ Mafalda Ferro¸ Manuel Vilaverde Cabral¸ Maria Barthez, Paulo Ribeiro Baptista, Raquel Henriques da Silva, Rita Almeida Carvalho, Rosa Paula Rocha Pinto, Sérgio Avelar Duarte, Teresa Rita Lopes, Vasco Rosa, Vera Marques Alves. O prefácio é de Alfredo Magalhães Ramalho.

 
01 — Convite e Programa do Colóquio «António Ferro, depois da sua morte»,
Divulgação.

 


Lembrando António Ferro, 70 anos depois da sua morte, a Fundação António Quadros e o Instituto de Filosofia Luso-Brasileiro organizam um colóquio de dois dias, a realizar no Palácio da Independência em Lisboa (dia 19 de Junho) e na Fundação António Quadros em Rio Maior (dia 20 de Junho).

 

19 de Junho: PALÁCIO DA INDEPENDÊNCIA (Lisboa)

10.30: ABERTURA

 

10.45: PAINEL I

— O Teatro de António Ferro | ANTÓNIO BRAZ TEIXEIRA

— A Estética do Poder e a Performance Crítica: Desconstruir a Exposição do Mundo — Português (1940) | BEATRIZ ALBUQUERQUE

— António Ferro em Berna e Roma: Diplomacia Cultural e Propaganda do Estado Novo (1950-1956) | CARLA RIBEIRO

— Na Biblioteca de Pessoa: Vestígios de António Ferro | MARIA DO CÉU ESTIBEIRA

— Pessoa e Ferro: Tão longe, tão perto | RICARDO BELO DE MORAIS

 

12.45: ALMOÇO

 

14.00: PAINEL II

— António Ferro e o Verde-Gaio: Convergência de linguagens | ANA MARGARIDA CHORA

— António Ferro e as Faculdades de Letras e de Direito de Lisboa: Um portal do conhecimento | ANNABELA RITA

— «A Grande Kodak do jornalismo português»: António Ferro, a fotografia e a construção da imagem pública no Estado Novo | CARLOS ALBERTO OSÓRIO

— «Nada é Difícil»: A Esperança e o brilho de Estrela Faria (1910-1976): Uma Artista no tempo de António Ferro | SANDRA LEANDRO

 

16.00: INTERVALO

 

16.15: PAINEL III

— António Quadros e a sua filiação espiritual em António Ferro | JOAQUIM DOMINGUES

— António Ferro: Ética e Estética da transgressão | JOSÉ ANTÓNIO BARREIROS

— A Exposição internacional de Nova Iorque, Em 1939: Convite ao escultor Delfim Maya | MARIA JOSÉ MAYA

— A Poesia de António Ferro | JOSÉ CARLOS SEABRA PEREIRA

— António Ferro visto por António Quadros: Um breve, mas incisivo retrato | RENATO EPIFÂNIO

 

18.15: Apresentação de obras

18.30: ENCERRAMENTO

 

20 de Junho: FUNDAÇÃO ANTÓNIO QUADROS (Rio Maior)

 

10.30: ABERTURA

 

10.45: PAINEL IV

— Identidade, Ideologia e Turismo: Portugal na revista Panorama (1941-1949) | ANA QUINTAS, PAULA COSTA SOARES, RUI ALEXANDRE

— Alguns apontamentos sobre a Teoria da Indiferença (1920), de António Ferro | ANTÓNIO COITO

— O Papel de António Ferro no auxílio aos refugiados intelectuais da Segunda Guerra Mundial em trânsito por Portugal (1939-1945) | FÁBIO ALEXANDRE FARIA

— António Ferro e o intercâmbio luso-brasileiro: Experiência modernista e missão cultural — Continuidade, reconfiguração ou rutura? | MARIA BARTHEZ

— António Ferro, Salazar e a “Vida Moderna”: Aspectos da participação portuguesa na Exposição Internacional de Paris (1937) | PAULO BAPTISTA

 

12.45: ALMOÇO

 

14.00: PAINEL V

— Bruxelas, um passo de Ferro na Política do Espírito | JOAQUIM PINTO DA SILVA

— António Ferro e Gabriele d'Annunzio: A aventura fiumana | JOSÉ ALMEIDA

— António Ferro e as artes plásticas | JOSÉ CARLOS FRANCISCO PEREIRA

— A Leviana, a interpenetração de linguagens numa novela modernista | PAULA OLEIRO

— D. Manuel II: O Desventurado, de António Ferro | RUI CALISTO

 

16.00: INTERVALO

 

16.15: PAINEL VI

— Modernidade em cena: A performance de António Ferro no Brasil de 22 | ANDREIA CASTRO

— Francis Graça: Um admirador e amigo grato de António Ferro | ANTÓNIO LAGINHA

— Mulheres de Ferro em Batalha de Flores: Corpo, escrita e vida social | FERNANDO DE MORAES GEBRA

— António Ferro no espaço familiar | MADALENA FERREIRA JORDÃO

— António Ferro e a sua paixão pelo cinema, em Portugal e no mundo | MAFALDA FERRO

 

18.15: Apresentação de obras

18.30: ENCERRAMENTO

 

02  A minha alma é lânguida e inerme: os 100 anos da morte de Camilo Pessanha,
por António Coito

 

Em manuscrito datado de Novembro de 19341, Fernando Pessoa escreveu:

 

Houve em Portugal, no século dezanove, três poetas, e três somente, a quem legitimamente compete a designação de mestres. (...) São eles por ordem de idades, Antero de Quental, Cesário Verde e Camilo Pessanha. (...) Com Camilo Pessanha a poesia do vago e do impressivo tomou forma portuguesa.

 

No centenário da morte de Camilo Pessanha, importa revisitar e revalorizar o legado de um autor singular na cena literária portuguesa fin de siècle e, se quisermos, na criação de formas de linguagem usadas e privilegiadas pelos orpheístas, ilustrando uma poética já aberta ao Modernismo. Se em França autores como Verlaine, Rimbaud e Mallarmé lançavam as bases do Simbolismo, em Portugal, Pessanha reinventou a linguagem, defendendo uma poesia da sugestão, capaz de comunicar através da musicalidade e da exploração semântica das palavras, como se verifica nos seus vários poemas na obra Clepsidra (1920) único livro publicado pelo escritor.

Em todo o caso, o autor é hoje esquecido pelas novas gerações, especialmente pela sua quase-ausência no cânone escolar, apresentando-se como leitura opcional nas Aprendizagens Essenciais de Português do 9.º ano, na unidade didática dedicada ao estudo da lírica, e nas Aprendizagens Essenciais de Literatura Portuguesa para o 11.º ano (disciplina opcional no Ensino Secundário, com um número residual de estudantes), no módulo Romantismo, Realismo e Simbolismo, ao lado de Almeida Garrett, Antero de Quental, Cesário Verde e António Nobre. O desconhecimento de um poeta essencial para a compreensão do panorama literário português na transição do século XIX para o XX não só contribui para o parcelamento das várias escolas literárias, mas também para o empobrecimento do questionamento sobre a natureza das coisas, a partir de textos que nos obrigam a escrutinar a palavra, a apreciar a sua arquitetura estrutural e sonora e a interrogar o sentido do mundo e do ser.


Quanto ao esquecimento a que por vezes é votada a obra poética de Camilo Pessanha, Esther de Lemos2 destacou a dificuldade a que muitas vezes a crítica se presta quando procura explicar o texto por fatores extrínsecos e vê nele apenas um documento humano ou uma expressão de cultura, ficando desarmada ante essa poesia que lhe troca as voltas e lhe oferece um terreno estreito e hermético de observação. Ainda assim, António Quadros terá sido um dos grandes pensadores que, armado de afectos, coragem e conhecimento, contribuiu para a divulgação da obra de Camilo Pessanha, através de dois volumes dedicados ao autor: Clepsidra e Poemas Dispersos (I) e Contos, Crónicas, Cartas Escolhidas e Textos de Temática Chinesa (II) pelas Publicações Europa-América. Nestas empreitadas editoriais, António Quadros organizou os textos e adicionou-lhes algumas notas, reforçando a essencial grandeza da obra poética de Pessanha, reconhecendo, ainda, a importância da sua prosa (textos dispersos em jornais e revistas portuguesas e macaenses, cartas e outros), quer pelo valor documental e biográfico, quer pelas páginas de rara qualidade literária.


No capítulo “Camilo Pessanha, o simbolista” da obra O Primeiro Modernismo Português: Vanguarda e Tradição e no texto de abertura de Clepsidra e Poemas Disperso3, António Quadros deixa um pequeno retrato do poeta: Uma vida inteira de angústia e sofrimento para um minuto de luz, fora do tempo e do espaço? Tal a humana condição, tal a fortuna deste infeliz homem, tocado pelo génio da poesia.

Nos dias de hoje, talvez Pessanha não tenha tantos adeptos, pois, em tempos marcados pela velocidade e pela agressividade, nem sempre há disponibilidade ou vontade para parar, ler e sentir a palavra tão humana da poesia.

 

Notas:
1 - BN de Portugal, BNP/E3, 14E – 40, disponível em
https://modernismo.pt/index.php/arquivo-fernando-pessoa-bd1/details/33/3824
2 - Esther de Lemos (2003). Estudos Portugueses. Porto: Porto Editora.
3 - Os textos das obras supracitadas são iguais, sendo, por isso, referidos simultaneamente.

 
03  100 anos depois da sua morte: Camilo Pessanha, o simbolista: Está tudo a acabar...,
por António Quadros

 

[Não conseguindo nós publicar na presente newsletter a totalidade do texto (pp. 77-120) que António Quadros, na sua obra "O Primeiro Modernismo Poruguês. Vanguarda e Tradição" (Europa América, 1988), dedicou à vida e à obra de Camilo Pessanha, limitamo-nos a transcrever apenas um pequeno excerto que nos pareceu mais apropriado no ano do centenário da sua morte (pp.100-102) e que, certamente, aguçará o interesse do leitor]

 

«Está tudo a acabar...»

Que fora a vida de Camilo Pessanha?


Infância de casa em casa, numa situação que só pouco a pouco terá compreendido, o pai importante, a mãe uma imagem dividida — uma personalidade forte a desempenhar um papel humilde, humilhado, secundarizado, fictício, a governanta e mãe, não a esposa, o lírio poluído, a Madalena de lastros pela lama — , também os estudos, a inteligência aguda, a sensibilidade a abrir-se para o mundo, por fim o entendimento total do estigma; logo a Universidade de Coimbra, os amigos, a boémia, os primeiros escritos publicados, quem sabe uma catarse, uma redenção das origens pela fama, pelo nome conquistado a pulso e pelo talento que em si sentia, impetuoso no seu corpo frágil; e, nas horas de maior tristeza e solidão, o absinto ou a aguardente, não em excesso, o bastante contudo para serem lembrados muitos anos depois pelos amigos, e o desejo, também, não só do corpo das mulheres, de uma mulher, sobretudo da sua alma, na procura de afinidades, de convergências, de uma família sua, uma família outra do que a de onde proviera; no entanto, a rejeição, os obstáculos inesperados, os olhares que se desviam, os encontros que falham, a realização terrível: não ser querido, não ser amado, não encontrar alguém que retribuísse os seus sentimentos, os seus projectos, os seus planos de viver e ser; e após a última recusa, a de Ana de Castro Osório, a fuga, o exilio, o degredo em Macau.

 

A sete chaves — a carta encantada!

E um lenço bordado... Esse hei-de o levar,

Que é para o molhar na água salgada

No dia em que enfim deixar de chorar.

 

Em Macau, porém, deixou alguma vez de chorar Camilo Pessanha? Professor, advogado, juiz, as doenças, as idas e as vindas da China para Lisboa, a colecção de antiguidades, os fugazes triunfos de um discurso de ocasião, uma posição na colónia, a companhia das governantas-concubinas chinesas, um filho que pouco representou para ele, as consolações do ópio... que significado podiam ter? Preencheram-lhe acaso a dificuldade de existir que fora sempre a sua?

Camilo Pessanha nunca mais deixou de ser um saudoso da sua terra e do grande amor que lhe fugiu entre os dedos. Ana de Castro Osório casara com o poeta Paulino de Oliveira, sobre o qual escreveria Fernando Pessoa um interessante texto, tivera dois filhos, que vieram a ser notáveis escritores portugueses, como ela, ambos nossos saudosos e queridos amigos, João de Castro Osório e José Osório de Oliveira. Mas enviuvara em 1914. Reacenderam-se as esperanças de Camilo, quando, em Setembro de 1915, pediu para gozar uma licença na metrópole? E reanimaram-se-lhe as achas da fogueira, quando, em Lisboa, voltou a conversar com Ana, quando lhe leu os seus poemas nos serões prolongados de uma cidade onde ainda se gozava o prazer de conversar e de conviver, quando com ela e com o filho mais velho organizou a Clepsidra?


Súbito, viu-se acarinhado, admirado. Imaginou que tinha uma segunda oportunidade?


Cremos que sim, mas, mais uma vez, a sua amiga só quis ser sua amiga. Inesperadamente, precipitadamente, interrompeu então as férias e, antes de terminar o prazo de licença, voltou para Macau — o seu destino, o seu fado. Pouco tempo depois de aqui chegar, enviava a Ana de Castro Osório uma carta pungente:

 

Posso bem dizer que tenho dentro do meu coração, escrevia-lhe, um altar com três ou quatro imagens, e que diante dele passo a vida em ininterrupto êxtase. Fora dessas poucas afeições (uma delas sabe V. Ex.ª que é toda a pavorosa agonia da minha alma; da outra está, em um soneto que julgo V. Ex.ª ama, a síntese trágica) nada verdadeiramente e para mim tem realidade no mundo — por onde tenho passado como um sonâmbulo". [Carta de 5 de Novembro de 1916]

 

Referia-se Camilo por certo ao poema que atrás citámos na integra, exprimindo a sua desolação pela recusa da amada, o que principia Ao meu coração um peso de ferro [...], e ao soneto dedicado à mãe, que começa, Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho.

A primeira tinha morrido para sempre, a segunda tinha desaparecido da sua vida. Camilo Pessanha já nada tinha como real neste mundo, que apenas suportava, o melhor ou o pior que podia, com a ajuda do ópio. Sobrevivia descuidadamente, desinteressadamente, como um sonâmbulo, cada vez mais desalinhado, mais magro, mais doente, esperando a hora da libertação, que sobreveio enfim no dia 1 de Março de 1926, quando a tuberculose, agravada pelos excessos de já não querer viver e de tudo fazer para enganar a vida, lhe asfixiou por completo os pulmões.


Lúcido, nos últimos momentos explicou como queria o seu enterro, sem música nem coroas, transportado o caixão num armão militar, coberto pela bandeira nacional, como também era seu desejo. O seu amigo, o chantre Morais Sarmento, visitou-o nos derradeiros instantes e ofereceu-lhe amparo religioso. Agonizante, embora com impressionante calma, Camilo Pessanha recusou-o, dizendo: está tudo a acabar... tudo podridão... tudo matéria...45 [Danilo Barreiros, «Camilo Pessanha», in Boletim Mensal do Rotary Clube de Setúbal, ob. Cit.]


Terá talvez pensado na epígrafe da Clepsidra, que é afinal o epitáfio da sua vida neste mundo, entre a saudade do país perdido e o contraponto de uma pulsão de morte:

 

Eu vi a luz em um país perdido.

A minha alma é lânguida e inerme.

Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!

No chão sumir-se, como faz um verme.

 

Sente a saudade e a morte, mas entre a existência sonambúlica e o desejo de ser, algo se elevou, no entanto, algo ficou, que foi a catarse dos seus sentimentos pela sublimação da poiesis.

Entre nós, para sempre, a sua poesia. Como um corpo imorituro. E por isso nada foi em vão. A Clepsidra roda e o fio de água ou de areia dos seus versos continua a deslizar de cada vez que um leitor se detém para o contemplar. A poesia de Camilo Pessanha. Sua herança, sua justificação e o sinal da única, fugaz, e cindida embora, alegria da sua existência nocturna: a alegria da criação poética, do verso austero, do soneto substantivo sem oratória vã e sem excessos de sentimentalidade. E é todo um mundo de imagens, de ritmos e de símbolos subtilmente sugeridos que se nos oferece, perdurável e inesquecível. Música de câmara — para poucos, mas atentos espectadores. 

 

04 — Inês Guerreiro e Sarah Affonso, artistas, amigas, mestra e discípula, em torno de Fernanda de Castro,
por Mafalda Ferro


Completam-se este mês, 110 anos do nascimento de Inês Guerreiro. Em sua homenagem, falaremos do seu talento e a relação artística que manteve com Sarah Affonso, em torno de Fernanda de Casro.

Inês Guerreiro (Inês do Amparo Maracoto Guerreiro, 1915-1998) nasceu em Setúbal no dia 13 de Junho de 1915 no mesmo dia e ano em que foi publicado o primeiro número da revista «Orpheu» e, anos depois, do dia em que nasceu Fernando Pessoa. 

Pensamos que a sua amizade com Fernanda de Castro e, subsequentemente, com Sarah Affonso, data dos anos quarenta do século passado tendo, desde então, mantido relações de trabalho e/ou amizade com grande parte dos artistas e intelectuais da época das quais se refere Maria Archer, Cristina Lino Pimentel, Mily Possoz, Maria Forjaz Trigueiros, Nina Marques Pereira, Heloísa Cid, Ary dos Santos, Diogo Dória, Germana Tânger, David Mourão-Ferreira, Manuel Couto Viana, Margarida Homem de Sousa, Teresa Leitão de Barros, Júlia Almendra, Águeda Sena, Amélia Rey Colaço, Natércia Freire, Maria da Graça Freire, entre outros.

Tendo vivido, e morrido em 1998, sem descendência, distribuiu os seus afectos por amigos e, em especial, pelos sobrinhos Ricardo, João e Isabel (filhos de sua irmã Manuela Guerreiro Novais), pelas filhas da sua irmã Maria Luísa Guerreiro Neves mas também pelos filhos e netos de Fernanda de Castro, de todos pintando e desenhando retratos.

Sabemos que Sarah Affonso, mulher de Almada Negreiros, foi uma das suas mestras e que terá conhecido Fernanda de Castro com aproximadamente 25 anos, sendo desde então a sua mais presente amiga e colaboradora.

Destacou-se como ilustradora, desenhadora, pintora, retratista, figurinista, cenógrafa, restauradora e decoradora de interiores. Desenhou e pintou móveis, trabalhou com folha de ouro, concebeu registos de santo e desenhos para bordados e, sendo muito organizada e responsável, foi uma grande gestora.

Em 2025, fomos obrigados a adiar uma exposição que preparávamos em sua homenagem. Recuperando o projecto comunicamos a sua realização, a inaugurar no dia 28 de Julho. O nosso objectivo é dar a conhecer a sua obra na sua relação com Sarah Affonso e na sua colaboração com Fernanda de Castro, mostrando ilustrações, telas, retratos, bordados, entre muitas outras peças artísticas.

 
05 — Inês Guerreiro e Fernanda de Castro,
por Francisco Leote Almeida Dias

 

[Francisco Almeida Dias FOI O ÚNICO, na sua tese de licenciatura «Em Fernanda de Castro, literatura e artes plásticas no português, feminino, plural» a debruçar-se sobre a figura e a obra de Inês Guerreiro, ladeada, no seu estudo, por Sarah Affonso, Ofélia Marques, Viviane Gonçalves Pereira e Maria Keil]

Inês Guerreiro foi, certamente, a mais assídua, a mais constante, a maior colaboradora de Fernanda de Castro. Foi além disso uma amiga dedicada e constante, que a acompanhou toda a vida.


No entanto, de Inês Guerreiro sabemos quase nada. A Inês Guerreiro são dedicadas apenas duas linhas genéricas no "Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses"1 uma citação, apud  José-Augusto França2, como sendo uma pintora na linha de" Sarah Affonso, e a única referência biográfica de que dispúnhamos á partida era a fornecida no "Catálogo da II Exposição de Artes Plásticas da Gulbenkian". De resto, não conhecemos nenhuma alusão a esta Artista em algum dicionário biográfico, nenhuma entrada em alguma enciclopédia, nenhuma referência em nenhum manual de História da Arte.


Urge, portanto, introduzir Inês Guerreiro, cujo carácter multifacetado se desdobrou pela pintura, pelo desenho, pelas artes gráficas, pelos trabalhos oficinais e pela cenografia, na História da Arte do chamado "Segundo Modernismo Português”, em que a delicada estética da sua obra se enquadra na perfeição, e em cujo período se situa a parte mais importante da sua produção.


(Poucas) Noticias Históricas


Fernanda de Castro refere-se-lhe nestes termos em 1953: "Inês Guerreiro, cuja bela pintura, pouco conhecida ainda, é clara e luminosa como a sua alma [...]3. Mas, na verdade, Inês Guerreiro estivera já presente por três anos consecutivos na "Exposição de Arte Moderna" promovida pelo Secretariado de Propaganda Nacional, em 1944, 1945 e 1946. Em 1945 expõe duas obras: «Sol de Inverno» e um estudo. No ano seguinte, apresenta dois retratos, e um terceiro quadro chamado «O lenço encarnado».

A data destas primeiras aparições públicas coincide com o início da colaboração de Inês Guerreiro com Fernanda de Castro na extensão que criou nos anos 40, do seu projecto social dos Parques Infantis, iniciado em 1932. Não custa, portanto, a acreditar que houvesse influência da Poetisa nestas participações, dotada como era de um entusiasmo contagiante, e sendo mulher de António Ferro, o promotor destas exposições […]

Não pudemos confirmar, por não existirem fontes que o provem, uma informação corrente entre a família: a de que Inês Guerreiro fora uma das únicas — senão a única - discípula de Sarah Affonso. Em tal ideia não é difícil de acreditar, já que Sarah Affonso, tinha uma formação académica muito completa, e, por outro lado, como sugere o próprio José-Augusto França, serem fáceis de encontrar muitas afinidades entre o estilo e a temática de uma e de outra. Tomando, por exemplo, os números 3 e 4 da revista Bem Viver, dedicados à "Criança" e à "Moda" — em que Sarah participou com desenhos na capa e no interior, há duas séries de desenhos, presumivelmente de Inês Guerreiro (adivinhamo-lo por pequenos detalhes estilísticos, e pelo hábito que a Directora Gráfica de Bem Viver tinha de não assinar as suas ilustrações — ao contrário de Sarah Affonso, que o fazia quase sempre) que apresentam semelhanças gritantes com o estilo da Artista mais velha: uma cartela de brinquedos que ilustram um poema homónimo de Fernanda de Castro e uma galeria histórica, em seis imagens, da evolução dos toucados através dos tempos. […]

Notas:

1 - De Fernando Pamplona. Civilização Editora, 1987: "Mostra delicadeza emotiva em suas obras de linhas simples e cunho moderno".
2 - Em "A arte em Portugal no século XX (1911-1961). Bertrand, 1984.
3 - Revista «Bem Viver»: Enfeites. Lisboa, 1953.


[Fomos obrigados, devido à sua extensão, a não publicar aqui a maior parte desta tese, nomeadamente no que refere às colaborações de Inês Guerreiro com Fernanda de Castro: «A Colmeia», a revista «Bem Viver», o «Solar de Dom Carlos», o  «Pássaro Azul», as «Festas da Cidade», o «Teatro de Câmara António Ferro», os dois Festivais do Algarve, o restaurante «Al Faghar», os apartamentos de Vilamoura, as capas e ilustrações de livros, o retrato de Fernanda de Castro]

 

06  130 anos depois do seu nascimento, lembramos Leitão de Barros, as suas marchas populares, e muito mais,
por Mafalda Ferro

 

José Júlio Leitão de Barros nasceu em Lisboa, a 22 de Outubro de 1896 e, na mesma cidade, morreu no dia 29 de Julho de 1967.

Destacou-se como pintor, jornalista, introdutor da heliogravura em Portugal, professor do liceu (Félix Ribeiro foi seu aluno), cenógrafo, autor de cortejos históricos e de exposições, escritor, dramaturgo, cineasta... Na área do cinema, de sua autoria, destacamos «Malmequer», o seu primeiro filme (1918), «Maria do Mar» (1930), o seu último filme mudo e »Severa» (1930), o (seu) primeiro filme sonoro português e «Ala Arriba» (1942), que lhe granjeou a Taça Bienal de Veneza. No entanto, dos muitos que realizou, a sua preferência ia para os filmes históricos.

 

Prefiro um filme rude, feito com o povo, no género de «Maria do Mar» a uma comédia de casacas alugadas e de vamps empregadas em escritório.

Leitão de Barros, em «Cinéfilo», Lisboa, 5 de Janeiro de 1935.

 

Este ano, 2026, celebramos Leitão de Barros, 130 anos depois do seu nascimento, destacando, neste mês de Junho, durante a sua 56.ª edição, as Marchas Populares modernas de sua autoria, no intuito de lembrar aos lisboetas e a quantos por todo o Portugal desenvolveram este seu projecto o papel de Leitão de Barros nas marchas de  1932, nomeadamente durante a presente efeméride.

Apesar de, assim consta, as marchas em Lisboa existirem desde o século XVIII nos seus arraiais populares, esta tradição foi recuperada, noutros moldes, no século XX, em 1932, por Leitão de Barros a convite de António Ferro, responsável pela política cultural do Estado Novo. A proposta era organizar na noite de Santo António um concurso de marchas. Assim, no dia 12 de Junho de 1932, no Teatro Capitólio do Parque Mayer, com entrada gratuita, os lisboetas assistiram a um concurso entre três bairros, o Bairro Alto, o Alto Pina e Campo de Ourique, tendo também participado Alcântara, Mouraria e Alfama.


A iniciativa foi apoiada por Norberto de Araújo, Campos Figueira de Gouveia (administrador do Parque Mayer), o «Diário de Lisboa» e o «Notícias Ilustrado» dirigido por Leitão de Barros. Segundo Gabriela Carvalho:

 

a acção de Leitão de Barros, a sua criação genial, não teria sido o sucesso que foi se não tivesse conseguido despertar a sensibilidade do povo/público para algo que estaria latente na sua pré-existência cultural. As Marchas de Lisboa vêm, seguramente, despertar a identidade bairrista da população, exacerbar a competitividade existente entre vizinhos, criar laços cada vez mais fortes na comunidade unida por um mesmo projecto, pela mesma História.

 

Calcula-se que, por motivos financeiros, em 1934, as Marchas passaram para a alçada da CML, tendo-se então formado uma comissão constituída por Luís Pastor de Macedo, Gustavo Matos Sequeira, Norberto Araújo, Leitão de Barros, Amélia Rey Colaço e José de Figueiredo. À CML, se deve, até hoje, a continuidade deste projecto.

Importa referir que, desde 1932, os representantes dos bairros desfilaram nos anos de 1934/1935, 1940, 1947, 1950, 1952, 1955, 1958, 1963/1970, 1980/1983, 1988/2019, 2022/2026, como se vê, por vários motivos, com alguns intervalos como o que ocorreu em 2020/2021 devido ao programa de prevenção da pandemia de coronavirus.


Em 1950, ainda segundo Gabriela Carvalho,

as artistas de teatro e rádio tinham então uma parte activa nos desfiles, surgiam como madrinhas das várias Marchas, dos vários bairros. Nesse ano Maria Clara foi madrinha da Madragoa; Amália madrinha da “sua” Alcântara; Hermínia Silva, do Castelo; Laura Alves de Campolide...
Se a década de 50 constitui a época áurea das Marchas dos Bairros, em 60 elas saem quase todos os anos, constituindo-se como um dos números fortes das Festas da Cidade. A mudança de regime político em 74 causou um interregno grande nas
Marchas só voltando a ser, ainda que timidamente, um dos componentes das Festas de Lisboa, no início dos anos oitenta. Na segunda metade da década de noventa, porém, as Marchas constituem-se como o ritual nuclear das Festas de Lisboa, com o desfile da Avenida da Liberdade a atrair grande parte da população da capital e transmitidas em directo, pela televisão.

 

Não foi esta a única iniciativa em que Leitão de Barros e Ferro trabalharam em perfeita sintonia, já que, amigos desde o início dos anos XX, colaboraram em inúmeras projectos, dos quais destacamos a Tóbis, as exposições de Paris, de Nova Iorque e do Mundo Português, o Teatro Novo, «Portugal 1934», o Torneio medieval no Mosteiro dos Jerónimos (Festas de Lisboa 1935), «Portugal 1940».

 

António Ferro volta a confiar-lhe a produção de um segundo Álbum de propaganda. [Portugal 1940] A 27 de Janeiro de 1939, Leitão de Barros apresenta um orçamento para 3.500 exemplares, sendo 500 encadernados luxuosamente.

Em "Leitão de Barros, a biografia roubada",
de Joana Leitão de Barros e Ana Mantero. Lisboa: Bizâncio, 2019.

 

Depois da partida de Ferro para Berna, Leitão de Barros, escreve-lhe uma carta (28.1.1950) brincalhona e já saudosa:

 

Não sei em que é que você pode matar o tempo nesse país de relógios, sem poesia e sem moscas, mas onde a vida lhe pode parecer diferente da nossa, como uma vaca leiteira o é de um touro bravo… Carta que assim termina:  Os meus parabéns para si, os meus pêsames para Salazar e para nós.

 

A amizade entre Fernanda de Castro e Leitão de Barros, data de 1915 (cc), desde os tempos em que esta estudava com Teresa Leitão de Barros no liceu Maria Pia, no Largo do Carmo. Esta amizade, estendida a José Leitão de Barros, permanece inalterada até ao fim dos seus anos em comum.

As duas famílias moravam na Tv. de Santa Quitéria em Lisboa e apenas um muro separava os dois jardins. Quando ambas levam à cena no Nacional uma peça de sua autoria, Leitão de Barros desenha os cenários e é convidada pelo cineasta a participar em "As Pupilas do Senhor Reitor", escrevendo versos para várias músicas populares e marchas.

 

[...] «Por volta das quatro horas começavam a chegar os convidados: Virgínia Victorino, Helena Roque Gameiro, com quem o José veio a casar, eu, Augusto Santa Rita, Américo Durão, José Bruges de Oliveira, António Ferro, Cottinelli Telmo, Luís Reis Santos e outros menos íntimos que o112

José ia convidando ao longo da semana. Todos fazíamos qualquer coisa para animar o chá. A Virgínia, o Américo Durão e eu dizíamos versos, o António Ferro ia-nos lendo, pouco a pouco, páginas da sua Leviana e da sua Teoria da Indiferença. O [Cottinelli] Telmo fazia o pino e outras palhaçadas que horrorizavam a Maria Luísa de quem estava noivo, ou quase; o Santa Rita, a nosso pedido, recitava o Preto papusso papão. A Helena e o José falavam das suas futuras exposições. O Reis Santos, duma sova que levara por ter ousado dizer mal duma exposição, se não me engano, de Veloso Salgado.

Meu Deus! Como éramos então felizes e como gostávamos todos uns dos outros. Como nos achávamos todos geniais, como a inveja e a má-língua andavam longe de nós!

Um dia, num destes chás, já não sei a que propósito, resolvemos organizar uma grande festa nas Belas-Artes. O José, mandão como era, começou logo a elaborar o programa: "Na primeira parte põe-se o Pedro de Freitas Branco ao piano e ele e o Street Caupers cantam canções francesas e americanas. São ambos formidáveis. Vai ser um sucesso! A segunda parte será uma peça escrita pela Teresa e pela Fernanda, representada por vocês e encenada e ensaiada por mim.". A Teresa reagiu violentamente: "Uma peça?! Que peça, não sei fazer peças!" Eu também reagi: "Estás doido! Não contes comigo! Era só o que faltava!".

Mas, doido ou não, lá levou a sua avante e a festa lá se realizou exactamente como ele queria.

Pedro de Freitas Branco tocou e cantou, a Teresa e eu escrevemos a peça, um episódio romântico em verso, intitulado Malmequer, que foi representado por alguns de nós. Lembro-me de que a Virgínia era a Sécia, Tomás Ribeiro Colaço o Peralta, Cottinelli Telmo o Fauno, e José Bruges de Oliveira o Poeta ou vice-versa, não me lembro bem.» [...]

Fernanda de Castro, em "Memórias (1906-1987)", pp.110-111.

Lisboa: Fundação António Quadros, 2024.

 

Bibliografia consultada:

"As Festas de Lisboa", de Gabriela Carvalho, comunicação apresentada no colóquio com o mesmo nome cujas actas foram publicadas em Turismo em Portugal. Passado, Presente e Futuro? Actas. Edições Fundação António Quadros, 2012.

"Leitão de Barros", por Fernando Duarte. Santarém: 4.º Festival Internacional de Cinema,1974.

"Leitão de Barros, a biografia roubada", de Joana Leitão de Barros e Ana Mantero. Lisboa: Bizâncio, 2019 
 
07  Leitão de Barros e os "Náufragos" de Fernanda de Castro,
por Mafalda Ferro

 

Em 1910, Fernanda de Castro, amante do Algarve, das suas gentes e dos seus costumes, escreveu a sua primeira peça de teatro. Chamou-lhe «Náufragos». Atraves das "Memórias" da autora, sabemos que a peça foi premiada em 1920 pelo Conselho Teatral do Teatro Nacional Almeida Garrett constituído então por Vitoriano Braga, Ramada Curto e Gustavo Matos Sequeira.

Nos salões da Ilustração Portuguesa, realizou-se a 4 de Março de 1922 a leitura de «Náufragos»
1 original de Fernanda de Castro. Estiveram presentes: Narcisa de Meneses, Maria de Carvalho, Maria José Telles da Silva, Conde de Sabugosa, Fernanda de Castro, António de Bourbon, Américo Durão, José Dias Sancho, Manuel Colares Pereira, José Parreira, Bernardo Marques, Leitão de Barros, Afonso de Bragança, José Pacheco, Alfredo Pimenta, João Ameal, António Ferro e António de Meneses. No entanto, a peça só se estreou em Abril de 1925, com encenação de Rafael Marques. Nas suas "Memórias"2, Fernanda de Castro lembra o ocorrido:

Quando entreguei no teatro, dactilografados, os dois exemplares [da peça] exigidos, fiquei ansiosa, à espera de notícias. Foi-me atribuído o prémio, como já disse. Depois disto passaram, porém, anos, três ou quatro anos e, como nunca mais me disseram uma palavra a este respeito, convenci-me de que o assunto tinha ido por água abaixo e não passara de um projecto falhado, como tantos outros. Calculem, pois, o meu espanto quando, certo dia, recebi pelo correio uma carta do teatro a convocar-me para uma reunião em determinado dia e a determinada hora. Pedi ao António e ao Leitão de Barros que me acompanhassem, e à hora marcada lá estávamos os três no teatro. Fomos recebidos na sala da direcção, atenderam-nos com mil amabilidades e mil sorrisos, e o mais importante dos senhores importantes que nos recebiam disse-me:

Antes de mais nada, peço-lhe perdão deste atraso, devido a obras intermináveis no palco e nos camarins e ainda a várias complicações burocráticas que não vêm ao caso. Agora, porém, que todas as dificuldades foram removidas e a peça vai entrar em ensaios imediatamente, acho conveniente que tudo fique hoje resolvido: escolha dos artistas, do cenógrafo, direitos de autor, etc. – Eu respondi imediatamente:

Quero que o Leitão de Barros faça os cenários e os figurinos.

Na minha peça havia muitos personagens masculinos importantes, mas só um papel feminino de relevo, tão importante que era o coração, o fulcro da peça, em torno do qual girava toda a acção. Quanto aos actores, depressa foram escolhidos por unanimidade: José Ricardo, Joaquim Costa, Rafael Marques e Ribeiro Lopes nos principais papéis. Quanto à personagem feminina, deram-me a escolher entre a Ester Leão e a Ilda Stichini. Impulsivamente, sem reflectir um momento, disse muito depressa: «Prefiro a Ilda». [...]

... pedi ao António para estarmos no teatro meia hora antes de começar o espectáculo para me esconder num cantinho da frisa que me estava reservada, atrás das amigas que naturalmente estavam sentadas à frente. Consegui assim que ninguém desse por mim até ao fim do primeiro acto. Este era um acto de apresentação como todos os primeiros actos e como tal não correu bem nem mal, mas logo que subiu o pano, o Leitão de Barros teve uma enorme ovação pelas maravilhas que tinha conseguido. No palco, que eu vira coberto com uma velha e esburacada serapilheira, havia agora uma praia, um areal, com um barco e um velho pescador a fumar cachimbo e, sentadas no chão, três mulheres que consertavam redes. Ao fundo havia agora uma rua de aldeia de pescadores, à antiga, com casinhas caiadas e com barras ocres ou azuis, e pequenas chaminés rendilhadas. O efeito era tão surpreendente que eu própria ainda hoje me pergunto como é que ele conseguiu transformar o palco do Nacional.

Efeitos de luz e outros truques semelhantes – disse-me ele com a sua habitual modéstia. As palmas que recebi deviam ser repartidas com o electricista que, esse sim, fez verdadeiros milagres.

REFERÊNCIAS:

Os cenários de Leitão de Barros têm cor, têm pitoresco, criam ambiente e merecem ser assinalados como uma interessante expressão mise-en-cénica, digna mais do que dum incentivo, dum aplauso. Faço, no entanto, reserva às árvores do 2.° acto, uns ciprestes, um tanto ou quanto convencionais.3

Joaquim de Oliveira, crítico e encenador,
no «Diário de Notícias», a respeito da cenografia do jovem Leitão de Barros

 

Em Abril, estreou-se a peça «Náufragos», de Fernanda de Castro Ferro, cuja montagem cenográfica fora dirigida no sentido modernista por José Leitão de Barros.

Gustavo de Matos Sequeira, 1955,
em "História do Teatro Nacional D. Maria II", volume 2.

 Notas

1 - Ilustração Portuguesa», n.º 838, 11 de Março de 1922. [FAQ/02/0487/00019]

2 - "Memórias (1906-1987)" Nova edição, Fundação António Quadros, 2024, pp. 182-183.

3 - Em Prefácio por Eugénia Vasques de "Náufragos. Edição crítica", Fundação António Quadros, 2024.

 

 

08 — Livraria António Quadros
Obra em Promoção até 14 de Julho de 2026

 

Título: António Ferro 120 anos. Actas.
Coordenação e organização: Mafalda Ferro
Autoria de Textos: Ana Filomena Figueiredo, António Cardiello, Ernesto Castro Leal, Guilherme Oliveira Martins¸ José Carlos Calazans, José Guilherme Victorino¸ Lauro António¸ Madalena Ferreira Jordão¸ Mafalda Ferro¸ Manuel Vilaverde Cabral¸ Maria Barthez, Paulo Ribeiro Baptista, Raquel Henriques da Silva, Rita Almeida Carvalho, Rosa Paula Rocha Pinto, Sérgio Avelar Duarte, Teresa Rita Lopes, Vasco Rosa, Vera Marques Alves.
Ilustrações: Reproduções fotográficas.
Prefácio: Alfredo Magalhães Ramalho      
Observações: Registo das acções realizadas em homenagem a António Ferro durante o ano de 2015, 120 anos depois do seu nascimento.
Edição — Lisboa: Fundação António Quadros Edições | Texto Editores, 2016.

Encomendas: geral.faq@gmail.com 
PVP: 12,00 (até 14 de Julho) 

 
 
     
 
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